Estudando o Espiritismo

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

NÃO SE PODE SERVIR À DEUS E A MAMON

"NÃO SE PODE SERVIR À DEUS E A MAMON" - disse Jesus

O texto "Não se pode servir a Deus e a Mamon" está no cap. XVI do O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Mas, quem foi Mamon?
R: Mamon era um dos deuses adorados pelos sírios, na antiqüidade. Ele representava as riquezas. Por isso, suas estátuas eram fundidas em ouro ou prata.
Por isso Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque aborrecerá a um e amará a outro ou se unirá a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas.”
Lendo estas palavras, parece que Jesus tinha horror à riqueza e muita má vontade com os ricos. O que não é verdade.
Ao proclamar que não se pode servir a Deus e às riquezas, o Mestre refere-se ao problema do apego. É bem próprio das tendências humanas que o indivíduo, quanto mais ganhe, mais deseje ganhar. E, quanto mais se empolga pelas riquezas, menos sensível se faz às misérias alheias. Então, complica-se, porque, ao invés de servir-se da riqueza para aproximar-se de Deus, afasta-se de Deus por servir à riqueza.

Vejamos estes dois exemplos:
A Condessa Paula, que está no livro O Céu e o Inferno, que enquanto encarnada foi bela, rica, de família ilustre, de qualidades intelectuais e morais. Ela era boa, meiga e indulgente, soube administrar a fortuna levando grande parte aos necessitados. Em sua comunicação mediúnica disse:
“ . . . ricos, tenham sempre em mente que a verdadeira fortuna imorredoura, não existe na Terra; procure antes saber o preço pelo qual possa alcançar os benefícios do Todo-Poderoso.”
Já no O Evangelho Segundo o Espiritismo, temos o depoimento da Rainha de França, que não soube administrar a riqueza para o bem, e se utilizava de seu poder para humilhar seus súditos. Sua comunicação após a desencarnação dizia assim:
“ Quem melhor do que eu poderá compreender as palavras de Nosso Senhor, quando Ele disse: ‘Meu Reino não é deste mundo?’ O orgulho me perdeu sobre a Terra; quem, pois compreenderia a insignificância dos reinos deste mundo, se eu não o compreendesse? Que carreguei comigo da minha realeza terrestre? Nada, absolutamente nada; e como para tornar a lição mais terrível, ela não me seguiu até o túmulo! Rainha eu fui entre os homens, rainha eu acreditava entrar no Reino dos Céus. Que desilusão! Que humilhação, ao invés de ser recebida como soberana, vi acima de mim, mas bem acima, homens que eu acreditava pequenos e que desprezei porque não eram de um sangue nobre. . .”

Por isso, Pascal disse: “O homem não possui seu, senão aquilo que pode levar deste mundo. O que é, então, que possuímos? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais . . .”

"O problema é quando o dinheiro deixa de ser um meio de vida e se converte na finalidade dela, quando deixamos de ser senhores do dinheiro e nos transformamos em escravos dele.
O portador de dinheiro amoedado esquece que está na Terra para evoluir, não para acumular bens materiais de que jamais usufruirá, ainda que estenda por milênios a jornada humana." (Richard Simonetti)


Compilação de Rudymara

sábado, 10 de junho de 2017

Histólise corporal – Cremação – Suicídio e Histogênese Espiritual

http://www.correioespirita.org.br/categorias/ciencia-e-espiritismo/2052-histolise-corporal-cremacao-suicidio-e-histogenese-espiritual


 Djalma Santos


               Logo depois da morte, ocorrem muitos fenômenos ainda desconhecidos do homem terreno e que necessitam ser estudados com carinho, por todos aqueles que já têm a certeza de que a morte virá, de preferência de surpresa, atordoando pobres e ricos, nobres e plebeus, numa ação devastadora incansável de transformar, porque esse é o seu papel diante da natureza e da vida, cabendo à matéria-prima visualizada por ela, que somos nós, o esforço para compreendê-la e assimilá-la, através de um estudo sério, que inclui a parte física, científica e moral.

            Educar-se para morrer é um imperativo biológico e espiritual que todo homem deveria entender; estudando minuciosamente as funções vitais do corpo físico, o único elemento a ser atingido pela morte; como também, o estudo sobre o perispírito e sobre o espírito imortal, que é na realidade, o organizador e mantenedor da roupagem física, seu instrumento de evolução no campo da matéria grosseira.

            Momentos depois da morte física, ocorre o primeiro fenômeno intitulado “Histólise Corporal”, que é a putrefação e decomposição gradativa dos restos mortais que, destituído do princípio vital que o animava, perde as prerrogativas de vida, e todo o arcabouço celular se desfaz, através de uma ação fermentada nos músculos e no estômago, e uma ação reduzida no sistema nervoso e circulatório.

            A “Histólise Corporal” conta também com os bilhões de vermes, que se encontravam em estado letárgico nas células do corpo físico, e que se afloram tão logo ocorre a morte, iniciando um processo voraz de destruição da matéria agregada para formar o aparelho fisiológico. É muito importante o estudo da “Histólise Corporal”, porque existem casos em que os desencarnados presenciam esse fenômeno, ocasionando sofrimentos terríveis para o espírito em desequilíbrio mental, que vê através da vista espiritual, o corpo físico ser consumido pelos vermes, pelo fogo, pela água e outros meios anormais de decomposição.

            Isto nos leva a termos mais cuidados com o processo de “Cremação” de cadáveres, muito em moda sem que se obedeça algumas regras, ou mesmo sem o consentimento, em vida, do dono dos restos mortais a serem incinerados. Países do primeiro mundo, como os Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e França, não só queimam os cadáveres, como também já existe um processo de transformar as cinzas dos mortos em joias, que os familiares utilizam no pescoço em forma de cordões e nos dedos em forma de anéis. Descobriram que as cinzas podem ser transformadas em diamantes, com um custo de milhares de dólares, só para se dizer que carrega nos dedos o próprio pai, ou no pescoço a própria mãe. Os corpos a serem incinerados devem esperar um tempo mínimo de 72 horas para que o perispírito possa se desagregar totalmente do corpo físico.                                                    

             Os suicidas, criminosos de alta periculosidade ou sensuais ferrenhos podem vivenciar, depois da morte, a triste surpresa de acompanhar a decomposição do corpo físico; mas as pessoas que vivenciaram uma vida de trabalho, solidariedade e compartilhamento, dificilmente visualizam esses quadros deprimentes da vida espiritual. Grande parte dos desencarnados acompanham seus restos mortais até o cemitério e presenciam o próprio enterro, e somente os maldosos, cruéis, sensuais, corruptos, assassinos e ladrões sofrem com essa experiência após a morte.

            Nenhum espírito, nem mesmo os iluminados, desaparece como por encanto depois da morte, e sim permanece por algum tempo, junto àqueles que lhes são caros, só se distanciando quando sentirem atraídos por novas aventuras no campo de espírito, que está só, mas acompanhado por amigos, membros da parentela familiar e principalmente pelo seu anjo da guarda. É importante lembrar que o impacto da morte atinge a todos sem exceção, respeitando é claro, o grau de conhecimento e evolução de cada um, assim como a capacidade de assimilar em curto espaço de tempo, o desequilíbrio provocado pela morte do corpo somático.

            O segundo fenômeno que ocorre depois da morte é a “Histogênese Espiritual”, ou seja, a formação do “Corpo Espiritual”, o momento em que o perispírito se agrega fora do corpo físico, se transformando num corpo de fótons, num corpo de luz, apresentando a forma humana. Esse fenômeno não deveria ser desconhecido pelo homem, porque na Bíblia, nas Cartas de Paulo, ele diz aos Gentios que: Semeia-se corpo físico e colhe-se corpo espiritual, e o corpo espiritual é o corpo da ressurreição.

             Paulo, o maior seguidor de Jesus de todos os tempos, deixa claro que depois da morte, vamos ressuscitar como aconteceu com Jesus, mas não com um corpo de carne como preveem muitas religiões, mas com um corpo de fótons, de luz, e o melhor, com a forma humana. Esse novo corpo do espírito imortal, que já se encontrava agregado ao corpo físico, será o novo instrumento do espírito imortal, nas novas dimensões do espaço infinito de Deus. É ainda através desse corpo fluídico que se processam as modalidades mediúnicas, desde que se possa contar com a presença de um sensitivo, que vulgarmente chamamos de médium.

            A “Histólise Corporal” e “Histogênese Espiritual” processam-se automaticamente depois da morte, mas nem todos os espíritos passam por esse processo com naturalidade, porque nossas faltas diante da vida, leves, médias ou graves, influenciam a rapidez ou a demora nesses processos de transformação, e muitas vezes, alguns espíritos levam horas, dias, meses e até anos para completar com naturalidade esses processos de desorganização e organização depois da morte. Espíritos evoluídos, que pautaram suas vidas pela ética e convivência junto aos outros, realizam a desagregação das moléculas e a agregação em minutos, e muitos deles se manifestam mediunicamente logo após a morte. Herculano Pires, escritor, jornalista e palestrante espírita, deixou uma mensagem 15 minutos depois de sua morte, demonstrando estar totalmente lúcido depois de seu desencarne.

            Quem consegue realizar com equilíbrio os dois fenômenos com naturalidade, se adapta com muita facilidade ao mundo espiritual, que em síntese é o mundo dos pensamentos, exigindo, portanto, uma mente forte, calcada no cumprimento dos deveres e ordenações humanas. O “Corpo Espiritual” ainda carrega consigo parte da matéria grosseira, sendo portanto diferente da energia que reveste o espírito imortal, e só com as reencarnações sucessivas e a iluminação gradativa é que o perispírito vai se rarefazendo, tornando-se etéreo e sutil, integrando depois de muito tempo a estrutura eletromagnética do espírito imortal, esse viajor da eternidade, esse nômade do espaço, esse andarilho do infinito de Deus.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

DEUS ACEITA-NOS COMO SOMOS

DEUS ACEITA-NOS COMO SOMOS
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Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti (...) Lucas, 15:18

(...) Deus nunca abandonou ninguém. Sua onipotência é perfeita e sábia, sua bondade é incondicional e justa. Quando nos sentimos abandonados, em verdade, nós próprios perdemos o elo com Deus. Deixamos de entender seus chamados ou não estamos querendo aceitar-lhe a vontade soberanamente realista e necessária ao nosso aprimoramento. Deus aceita-nos como sempre somos.(...) (Para Sentir Deus - Wanderley Oliveira - pelo espírito Ermance Dufaux)

PAI E AMIGO


“E, levantando-se, foi, para seu pai; e, quando ainda estava longe, o pai chegou a vê-lo, moveu-se de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.” - Jesus

(LUCAS, 15:20)

Sendo, ainda, Espíritos imperfeitos buscando o aperfeiçoamento, é natural que vez ou outra nos sintamos entristecidos e até desanimados diante de situações, onde percebemos que não agimos da forma como deveríamos.

Nesses momentos, procuremos lembrar que o amor de Deus, Nosso Pai, nunca falta e que Ele conhece as nossas dificuldades, por isso, proporciona a todos a oportunidade do reajuste.

A Parábola do Filho Pródigo, na qual esta lição se baseia, fala à Humanidade da bondade sem limites, da caridade infinita de Deus.
As individualidades que representam o Filho Obediente e o Filho Desobediente simbolizam a Humanidade da Terra. O Pai de ambos simboliza Deus.
Esta simples alegoria, demonstra o amparo e a proteção que Deus sempre reserva a todos os seus filhos. Nenhum deles é abandonado pelo Pai, tenha os defeitos, as dificuldades que tiver, pratique as faltas que praticar, porque somos todos criaturas suas.
Estejam os filhos onde estiverem, encarnados ou desencarnados, o Pai a nenhum despreza, a nenhum abandona , por que nos criou para sermos felizes e desfrutarmos do seu Amor, e não para sofrermos indefinidamente.

A Lei de Deus é igual para todos: não poderia ser boa para o bom e má para o mau, porque tanto o bom quanto o que é mau estão sob as vistas do Criador, que faz o mau se tornar bom, e o bom se tornar melhor, pois tudo é criado para glorificá-Lo.
Nas Leis de Deus não há privilégios nem exclusões, porque todos foram criados iguais e com as mesmas oportunidades de crescimento, de aperfeiçoamento.

Quando a criatura humana, num momento de irreflexão se afasta das Leis Divinas, e se entrega a toda sorte de dissoluções, a dor e a miséria, esses terríveis aguilhões do Progresso Espiritual ferem a sua alma orgulhosa até que num momento supremo de angústia, ela possa elevar-se para Deus e decidir voltar ao caminho que leva à perfeição.
É então que, como o filho pródigo, o homem transviado, arrependido, volta-se para o Pai carinhoso e diz: “Pai, pequei contra Ti, já não sou digno de ser chamado seu filho...” E Deus, nosso amoroso Criador, abre àquele filho as portas da regeneração e lhe possibilita tudo o que for necessário para esse grandioso trabalho da perfeição espiritual.

A citação evangélica, acima, convida a que nos fixemos no ensinamento de Jesus, enunciando o retorno do filho pródigo aos braços do pai, que o esperava sem exigir desculpas, sem impor qualquer condição, apenas aguardava que o filho se levantasse e desejasse o calor do seu coração.

Portanto, não desanimemos diante dos enganos, que mesmo sem querer , possamos cometer. Guardemos no íntimo a certeza de que Deus, Nosso Pai, não abandona a nenhum de seus filhos, seja ele quem for.
Não há falta, por maior que seja, que não possa ser reparada.
Tudo se corrige, tudo se transforma do pequeno para o grande, do mau para o bom, das trevas para a luz, do erro para a verdade.
Ao impulso do progresso tudo se aperfeiçoa, tudo evolui, todas as almas caminham para Deus.

Maria Aparecida Ferreira Lovo
Setembro / 2009

Bibliografia:
1 - XAVIER, Francisco C., pelo Espírito Emmanuel. Palavras de Vida Eterna.14. ed., Uberaba-MG: CEC, 1990, lição 89 Parábolas e Ensinos de Jesus, Cairbar Schutel,” Parábola do Filho Pródigo”

Filhos pródigos - Emmanuel - Pão Nosso


E caindo em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! – (Lucas, 15:17.)

Examinando-se a figura do filho pródigo, toda gente idealiza um homem rico, dissipando possibilidades materiais nos festins do mundo.

O quadro, todavia, deve ser ampliado, abrangendo as modalidades diferentes.

Os filhos pródigos não respiram somente onde se encontra o dinheiro em abundância.

Acomodam-se em todos os campos da atividade humana, resvalando de posições diversas.

Grandes cientistas da Terra são perdulários da in teligência, destilando venenos intelectuais, indignos das concessões de que foram aquinhoados. Artistas preciosos gastam, por vezes, inutilmente, a imaginação e a sensibilidade, através de aventuras mesquinhas, caindo, afinal, nos desvãos do relaxamento e do crime.

Em toda parte vemos os dissipadores de bens, de saber, de tempo, de saúde, de oportunidades…

São eles que, contemplando os corações simples e humildes, em marcha para Deus, possuídos de verdadeira confiança, experimentam a enorme angústia da inutilidade e, distantes da paz íntima, exclamam desalentados:

– Quantos trabalhadores pequeninos guardam o pão da tranqüilidade, enquanto a fome de paz me tortura o espírito!

O mundo permanece repleto de filhos pródigos e, de hora a hora, milhares de vozes proferem aflitivas exclamações iguais a esta.

Cair em si

Cair em si


Inegavelmente, as parábolas de Jesus são um manancial de aprendizado e beleza, porquanto são narrativas simples, mas de conteúdos espiritual e moral inigualáveis, sendo que permitem ao leitor ou ao ouvinte a identificação espontânea com o sentido ético da lição.

Jesus raramente apontava os erros individuais, pois sabe que o ego possui mecanismos automáticos de defesa, dentre eles, a negação, de tal sorte que, com as parábolas, facultava à criatura humana, de acordo com seu nível de maturidade, o reconhecimento e a análise de seus desvios morais e equívocos existenciais.

Dentre as parábolas narradas no evangelho, destaco a do filho pródigo, porque representa a síntese da evolução espiritual, permitindo-nos uma profunda reflexão a respeito de como anda a nossa atual existência física.

A benfeitora Joanna de Ângelis, na obra “Em Busca da Verdade”, pela lavra mediúnica do confrade Divaldo Pereira Franco, escreve sobre a referida parábola, dando-nos diversos enfoques sobre a conduta de cada personagem, tornando a parábola ainda mais rica e bela de ensinamentos. Fica registrada a sugestão para a leitura da obra mencionada.

A parábola expõe o momento em que o filho pródigo, imaturo e impulsivo, opta por sair da casa do genitor para viajar a um país longínquo, onde gasta sua parte da herança com leviandades e prazeres materiais. Após consumir-se nas paixões e gastar todo seu recurso econômico, vê-se diante de um período de fome que se instalara naquela região. Privado de tudo e passando necessidades, começa a trabalhar com porcos, vindo a disputar a comida com eles. Porém, chega o momento em que o filho pródigo cai em si e retorna à casa do pai, onde é acolhido com imensa ternura e amor.

 Essa parábola explica claramente o processo do deotropismo, isto é, fomos criados por Deus, portanto, saímos “das suas mãos”, mas, por imaturidade e ignorância, perdemo-nos na estrada da evolução e afastamo-nos dEle, até o momento em que, extenuados pelo sofrimento e famintos de amor e conhecimento, caímos em nós e optamos por voltar à casa do Pai Celestial, que, generoso e confiante, sempre nos aguardava.

Cair em nós significa o exato momento em que ocorre o despertar da consciência.

A consciência desperta quando identificamos que somos Espíritos imortais a caminho da plenitude e que a vida no corpo tem um sentido ético, devendo abranger o crescimento intelecto-moral.

Obviamente que é o primeiro passo na direção de regresso a Deus, pois outros desafios evolutivos surgirão, tais como, libertar-se dos conflitos cultivados, harmonizar o eixo ego-self, eliminar os defeitos morais e converter o despertar da consciência em atitudes renovadas sob a égide do amor.

No capítulo quarto da citada obra, Joanna de Ângelis compara o despertar da consciência com o mito da expulsão do paraíso.

Enquanto vivemos, simbolicamente, no jardim do Éden, o ego (carga de egoísmo presente no inconsciente, fruto da evolução nos reinos inferiores da criação) toma todo o espaço do Self (ser espiritual que contém o germe divino para a plenitude), gerando uma vida materialista, de acomodação e deleite. Era a conduta do filho pródigo, cuja consciência ainda estava adormecida.

Notemos que Adão e Eva não trabalhavam, porque o necessário para as suas sobrevivências estava à disposição no Éden. Todavia, após comerem o fruto da árvore proibida (mito), foram expulsos do paraíso, e Deus condenou Adão ao trabalho.

A partir dessa ocorrência, Adão passa a descobrir o valor do trabalho e do esforço, na medida em que tudo o que necessita passa a ser fruto do merecimento, portanto, há o despertar da consciência.

Assim ocorre conosco. Quando os ensinamentos de Jesus preenchem os vazios da alma, passamos a trabalhar em favor do nosso crescimento espiritual, na busca dos valores imperecíveis que dignificam a nossa vida. Na simbologia de Joanna de Ângelis, passamos a ser um novo Adão, isto é, um homem novo, com ideais bem definidos, procurando mais servir do que ser servido.

Caímos em nós e redefinimos o rumo de nossa vida como ser imortal destinado à plenitude, porque começamos a regressar à Casa do Pai, nesse processo de integração com o Arquétipo Primordial, razão pela qual Jesus disse que Ele e o Pai eram um só (perfeita integração).

Paulo de Tarso, ao cair em si, verbalizou “já não sou eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim”, porque integrou-se com o pensamento de Jesus e, por consequência, de Deus.

Anote-se que ao cair em si é natural que surjam as culpas, que, do ponto de vista psicológico, é produtiva desde que bem direcionada.

Joanna de Ângelis fala do “Eu-Angélico” (recursos divinos em nossa intimidade), que estimula a culpa, pois a presença desta é sinal de instalação do despertar da consciência, que nos aponta o certo e o errado, o bem e o mal proceder.

Diante da presença da culpa, cabe-nos não repetir o erro e reparar o mal causado, se possível. Caso não seja, basta fazer o bem em favor de alguém ou da vida, porquanto a ação fraterna é ponto positivo na contabilidade divina a anular ou amenizar o mal causado (o amor cobre a multidão de pecados – Simão Pedro).

À medida que vamos evoluindo, aproximamo-nos cada vez mais de Deus, tornamo-nos mais livres e felizes, uma vez que começamos a superar os impulsos inferiores e as tendências agressivas, bem como não permitiremos que o mal dos maus nos atinjam. Isto é ser livre. Não permitir que os outros afetem a serenidade interior conquistada a partir do cair em si.

O Espírito de Joanna de Ângelis ainda nos apresenta Jesus como sendo o filho pródigo do amor, haja vista que se afastou das regiões celestes (Casa do Pai) e foi para o país longínquo da matéria densa, vivendo com a ralé (pigmeus morais – simbologia do porco na parábola). Ensinou a criatura humana a dissipar a sombra individual, mas foi incompreendido e crucificado, voltando, rico de bênçãos, à Casa do Pai.

Todavia, seus ensinos permanecem como lições vivas de esperança e júbilo, tendo suas parábolas contribuído para esse cenário, auxiliando-nos no processo inevitável do cair em si, com o escopo de renovação moral.

Para os espíritas, cujo despertar da consciência foi mais intenso em virtude dos conhecimentos amealhados a partir do Espiritismo, percebemos que o cair em si se dará diante dos mínimos erros, porque a consciência, de imediato, apontará que não procedemos conforme deveríamos.

O Espírito de Bezerra de Menezes fala-nos sobre o ousar no bem, dar um passo além, de forma que o verdadeiro cristão, por ter caído em si, sabe que pode fazer mais em favor do amor e da paz, sobretudo, dulcificando a própria conduta.

Frise-se que o processo do cair em si não é um episódio único, mas inicia-se com o despertar da consciência, cuja extensão vai se ampliando na exata proporção do nosso esforço em favor da busca do conhecimento e da vivência do amor. “Conhecereis a verdade e ela vos libertará” dos equívocos, da ignorância. Naturalmente, chegará um momento da evolução em que não mais precisaremos cair em nós, pois a consciência e a conduta estarão perfeitamente afinadas com as diretrizes do evangelho.

O tema e a parábola em questão são profundos, de forma que caberiam outros apontamentos, mas fica o convite para o autoencontro, cientes de que o Pai Generoso nos aguarda sempre, amoroso e gentil, cabendo a cada um de nós apressar esse retorno, sobretudo pelas escolhas acertadas e por uma vida pautada pela pureza de coração. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO


       Um certo homem tinha dois filhos, que com ele moravam no seu lar.
       Um dia, o mais moço disse ao seu pai:
       — Papai, dá-me a parte da tua riqueza que me pertence. Eu desejo correr mundo, viajar por outras terras, conhecer nova gente…
       O velho pai, diante desse pedido, repartiu com am­bos os seus haveres, dando a cada um a parte que lhes cabia, de sua fortuna.
       Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todas as coisas que lhe pertenciam, partiu para um país distante, muito longe de sua terra natal.
       Esse moço, infelizmente, não era ajuizado. Mal chegou ao país estrangeiro, começou a gastar, sem cuidado, todo o dinheiro que possuia. Durante mui­tos dias não fez senão desperdiçar tudo que tinha. Buscou a companhia de outros rapazes desajuizados e consumiu toda a sua fortuna em bebidas, teatros e passeios. Um dia, viu que a última moeda havia desaparecido e se achava na mais absoluta miséria.
       Foi nessa época que uma grande seca reduziu aquele país a uma situação tristíssima. Com a seca, veio a fome. Mesmo nos lares ricos havia falta de pão. A miséria se estendeu, desoladora…
       O pobre rapaz, então, buscou um homem daquele país, contou-lhe sua desgraça e pediu-lhe a esmola de um emprego qualquer, mesmo que fosse o pior servi­ço. E o homem desconhecido o enviou para seus cam­pos a fim de guardar porcos. Os porcos se alimen­tavam de alfarrobas, que são frutos de uma árvore chamada alfarrobeira; mas, nem mesmo desses fru­tos davam ao pobre moço. Os porcos se alimenta­vam melhor do que ele!
Foi então que o moço começou a pensar no que havia feito com seu bondoso pai, tão amigo, tão com­preensivo, tão carinhoso… Refletiu muito… Como fora mau e ingrato para com seu paizinho! Como fora também ingrato para com Deus, desrespeitando o Seu Mandamento, que manda honrar os pais ter­renos… Sofrendo a conseqüência de seu pecado, o pobre rapaz arrependeu-se sinceramente de sua in­gratidão e de seus dias vividos no erro e no vício…
E pensou, então, entre lágrimas:
— Na casa de meu pai há muitos trabalhadores e todos vivem felizes pelo trabalho honesto. Vivem com abundância de pão e tranqüilidade… E eu, aqui, morrendo de fome!… Não, não continuarei aqui. Voltarei para minha casa, procurarei meu pai e lhe direi: “Meu pai, pequei contra o Céu e perante ti; não sou mais digno de ser chamado teu filho. Quero ser um simples empregado de tua casa …
E o moço, como pensou, assim fez.
Abandonando o país estrangeiro, regressou àsua pátria e ao seu lar. Foi longa, difícil e triste a volta, pois ele não mais dispunha de dinheiro para as despesas de viagem. Passou muitas necessidades, sofreu fome e frio, dormiu nas estradas e nas flores­tas… Nunca abandonou, porém, a idéia de que vol­tar para casa era seu primeiro dever.
Finalmente, chegou ao seu antigo lar. Antes, porém, de atingir sua casa, seu velho pai o avistou de longe e ficou ainda mais compadecido, ao ver o filho naquele estado de grande miséria. Seu coração pa­terno, que nunca esquecera o filho ingrato, era todo piedoso. O bondoso pai correu, então, ao encontro do moço. E abraçando-o fortemente, beijou-o com imenso carinho.
Nesse momento, com lágrimas nos olhos, o filho disse ao seu pai compassivo:
— Meu pai, pequei contra o Céu e perante ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho. Quero ser um empregado de tua casa…
O bondoso pai, porém, que nunca deixou de amar seu filho, disse aos empregados da casa:
— Depressa! Tragam a melhor roupa para meu filho, preparem uma refeição para ele. Tragam-lhe calçado novo! Comamos todos juntos e alegremo­-nos, porque este meu filho estava perdido e foi acha­do, estava morto e reviveu!
E todos os servos e empregados da casa atende­ram imediatamente o velho pai e houve imensa ale­gria naquele grande lar.
O filho mais velho, porém, não estava em casa.
Achava-se trabalhando no campo. Quando voltou e viu aquela grande movimentação no interior da casa e ouviu as belas canções que os músicos acompanha­vam com seus instrumentos, chamou um dos servos e perguntou o que era aquilo.
O servo respondeu:
— Foi teu irmão que chegou. Teu pai, de tão alegre e feliz, mandou que preparássemos uma ceia e uma festa, porque o jovem voltou são e salvo.
O filho mais velho, cheio de ciúme, revoltou-se contra a bondade de seu pai e não quis entrar em casa.
Em vão, o velho pai chamou-o. Mas, ele lhe res­pondeu:
— Meu pai, há muitos anos que te sirvo, sem nunca te desobedecer e nunca preparaste uma ceia para mim e meus amigos. Mas, para meu irmão, que gastou teu dinheiro nas orgias, em terra estrangeira, tu lhe preparas uma grande festa…
O bondoso pai, querendo vencer a revolta do filho, desviá-lo do seu ciúme e incliná-lo à bondade e ao perdão, disse-lhe:
— Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo que émeu é teu também. Mas, é justo que nos alegremos com a volta de teu irmão, que é também meu filho como tu. Lembra-te de que ele estava perdido e foi achado. Estava morto e reviveu para nosso amor e para nosso lar.

*

Querida criança: certamente você entendeu tudo que o Senhor nos quer ensinar com a Parábola do Filho Pródigo.
Deus é como o Bondoso Pai da história. Deus é bom, supremamente bom e está sempre disposto a receber Seus filhos arrependidos. É preciso, contudo, que o arrependimento seja verdadeiro como o do fi­lho caçula da história.
Percebeu como foi triste para o moço abandonar seu pai e seu lar? Viu como ele sofreu no país estran­geiro, onde nem mesmo teve as alfarrobas que os porcos comiam?
Assim acontece também com as almas que aban­donam os retos caminhos de Deus. Sofrem muito, pois quem se afasta do dever e da virtude conhecerá, mais cedo ou mais tarde, as dores do remorso e as tristezas da vida.
Arrependendo-se sinceramente, no entanto, Deus o escuta e usa de bondade a alma arrependida, como o pai da parábola, que é um símbolo de nosso Pai do Céu.
Que você se conserve no bom caminho, meu fi­lho. Mas se sentir que pecou contra Deus ou contra os homens, arrependa-se com a mesma humildade do filho pródigo. Nunca imite o filho mais velho da história, que era ciumento e orgulhoso e não teve compaixão do próprio irmão arrependido.
Deus é nosso Pai Compassivo e Eternamente Amigo. Não nos ausentemos nunca de Seu Amor. Mas, se errarmos, corramos para Ele, na estrada da oração sincera, com o coração arrependido e disposto a não errar mais. Ele nos ouvirá e virá ao nosso encontro, porque não há ninguém tão bom quanto Deus. Nem há quem nos ame tanto quanto Ele.

PARÁBOLAS DA OVELHA DESGARRADA E DO FILHO PRÓDIGO

PARÁBOLAS DA OVELHA DESGARRADA E DO FILHO PRÓDIGO

 V. 1. Os publicanos e os pecadores se aproximaram de Jesus para ouví-lo. — 2. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este homem recebe os pecadores e come com eles. — 3. Jesus então lhes propôs esta parábola: — 4. Qual dentre vós, aquele que, tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixará as outras noventa e nove no deserto, para ir procurar a que se perdeu até achá-la? — 5. E que, encontrando-a, não a carregará nos ombros cheio de alegria? — 6. Esse tal, voltando a casa reúne seus amigos e vizinhos e lhes diz: Congratulai-vos comigo, pois achei a minha ovelha que se perdera. — 7. Eu vos digo que, igualmente, mais alegria haverá no céu por ter um pecador feito penitência do que por causa de noventa e nove justos que não precisam fazer penitência.
 V. 11. Disse ainda: Um homem tinha dois filhos. — 12. O mais moço disse ao pai: Meu pai, dá-me a parte que me há de tocar dos teus bens. E o pai repartiu com os dois os seus bens. — 13. Poucos dias depois, o filho mais moço reuniu tudo o que era seu, partiu para um país estranho e muito distante e aí dissipou os seus haveres em desregramentos e deboches. — 14. Quando já havia dissipado tudo, grande fome assolou aquele país e ele começou a passar privações. — 15. Foi então e entrou para o serviço de um dos habitantes do país, o qual o mandou para uma sua fazenda a apascentar os porcos. — 16. Aí, muito gostaria ele de encher a barriga com as landes que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. — 17. Afinal, caindo em si, disse: Quantos jornaleiros há, na casa de meu pai, que têm pão em abundância, enquanto que eu aqui morro de fome! — 18. Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e lhe direi: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti. — 19. Não mais sou digno de que me chames teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros. — 20. E levantando-se, foi ter com o pai. Vinha ele ainda longe quando este o viu e, tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. — 21. Disse-lhe o filho: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; não sou mais digno de que me chames teu filho. — 22. O pai disse, porém, a seus servos: Trazei-me depressa a melhor das roupas e vesti-a nele; ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés; — 23, trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e regozijemo-nos; — 24, pois que este meu filho estava morto e ressuscitou; estava perdido e foi achado. E começaram a festejar o acontecimento. — 25. O filho mais velho, que estava no campo, ao aproximar-se de casa, ouviu música e rumor de dança. — 26. Chamou um dos servos e perguntou o que era aquilo. — 27. O servo respondeu: É que teu irmão voltou e teu pai mandou matar um novilho gordo por tê-lo recobrado são e salvo. — 28. O rapaz se indignou e não queria entrar. O pai saiu e se pôs a lhe pedir que entrasse. — 29. Ele, porém, disse: Já lá se vão tantos anos que te sirvo, sem jamais haver transgredido ordem tua e nunca me deste um cabrito para que eu me banqueteasse com meus amigos. — 30. No entanto, ao regressar o teu outro filho, que esbanjou todos os seus bens com meretrizes, logo lhe matas um novilho gordo. — 31. Meu filho, disse o pai, estás sempre comigo e o que é meu é teu; — 32, mas, pelo que respeita a teu irmão, era preciso que nos banqueteássemos e rejubilássemos, porquanto ele estava morto e ressuscitou, estava perdido e foi achado. (LUCAS, CAP. V, vv.1-7 e CAP. XV, vv. 11-32).
INTERPRETAÇÃO


Que o sublime Rabi da Galileia vos ilumine!
Maravilhosas são as palavras do Mestre Sublime!
Foram seus ensinamentos aplicados não só aos habitantes daquela época, como a todas as gerações posteriores.
Que somos nós? Que fomos nós, senão ovelhas desgarradas? Espíritos que não quiseram se submeter à sublimidade das leis divinas?
A bondade do Pai, porém, se fez e, em meio às trevas em que nos encontramos, veio Ele buscar-nos para que, juntos, irmanados pela fraternidade universal, participássemos das graças sublimes e da morada celestial.




Trazem essas parábolas um hino de esperança para os desiludidos, para aqueles que, dominados pelas suas próprias paixões, não examinaram qual o caminho certo a percorrer e, assim, enveredaram pelo caminho do mal.
Na parábola do filho pródigo, ainda maiores ensinamentos são revelados, porque é próprio filho que, visitado pela dor, bafejado pelo remorso, volta os seus passos pela estrada já percorrida e procura os braços amigos do seu pai.
E eis que Ele, com amor e alegria no seu coração, tudo perdoa porque recuperou o seu filho perdido.




O novilho gordo nada mais é do que as bênçãos do pai que, guardadas todos aqueles anos, são iluminadas pela gratidão, ministradas ao seu filho querido.
O outro filho que, voltando para casa, não compreende e não quer participar da alegria dos seus familiares, representa aqueles espíritos que não se sentem felizes com a felicidade alheia e que, ainda possuindo uma dose de egoísmo, não querem dividir o seu quinhão com mais ninguém.  Não possuía ainda este filho o espírito de renúncia necessária, imprescindível à espiritualidade superior.




Meus irmãos, minhas irmãs, todos nós erramos, todos nós somos entes frágeis, mas que podemos ser fortes e a tudo venceremos se, com esforço próprio, boa vontade e vigilância, controlarmos os nossos impulsos.
Quis o Sublime Mestre legar à Terra estas palavras de fé e de esperança. Qual de nós já não enveredou pelos caminhos tortuosos do próprio vício? Quem de nós já não voltou as costas aos sublimes ensinamentos?
Por quê? Porque para seguir o Mestre devemos dominar todas as paixões, esquecer o que nós fomos e lembrarmo-nos apenas de que estamos na Terra a serviço d’Ele, o nosso Mestre.







Não importa qual seja a nossa provação. Não importa a condição social em que estejamos. Importa, sim, dominarmos o nosso eu, esta personalidade que, muitas e muitas vezes, dominada pelo egoísmo, pelo excessivo amor próprio, faz com que não ouçamos a voz da consciência, ensinando-nos a prudência a calar, a silenciar para melhor vencer.




Irmãos e irmãs diletos! Quantos há colocados no mundo como uma ovelha desgarrada ou como um pai aflito, que tudo deu a seu filho, e o vê partir!
Lembrai-vos dessas parábolas! Em ambos os casos, apelai para as forças superiores.
Se enveredardes pelos caminhos do erro, não tende medo nem orgulho de vos arrepender!
O arrependimento é como o orvalho depois de um dia causticante. Ele revigora as forças e vos faz ver que o Senhor é misericordioso e vos perdoará.




Se sois o pai que, aflito, vê um pedaço do seu eu partir, apelai também para o Mestre e forças vos serão dadas para que possais aguardar, com paciência e resignação, a volta do seu ente querido.
Qual a atitude do Mestre se não a deste pai que há quantos séculos aguarda a vossa volta?
E para que mais depressa reconheçais os vossos erros, Ele vos faz visitar pela dor, pelos sofrimentos e porque não dizer, pela mediunidade, para que, por intermédio desses dons, possais, mais rapidamente, liquidar os vossos débitos.
Agradecei, pois, estas graças do Pai e, por menor que seja o dom recebido, agradecei. Ele, Jesus, vos servirá de guia para, mais rapidamente, reencetardes o caminho de volta.




Eis que o Senhor vos espera de braços abertos e, quando aos seus pés, vos reconhecerdes indigno de tantas graças, Ele vos estenderá as mãos e, juntos, voltareis ao planeta de trevas, dos sofrimentos, procurando as ovelhas desgarradas.
Compreendeis, então, o que seja valor de renúncia!
Tudo por que passastes, tudo o que sofrestes, foi antes sublime, necessário à evolução do seu espírito.
Tende, pois, tolerância para aqueles que não vos compreende.
Perdoa, com esquecimento completo, todas as ofensas recebidas.




Procurai transformar em luzes de abnegação, de tolerância, as lágrimas vertidas e sempre que puderdes, ao verdes uma ovelhinha se afastando do rebanho, ajudai-a a voltar; estendei-lhe mãos amigas e mostrai-lhe o caminho do aprisco divino.
Quando ainda dominados pela mágoa, se não sentirdes forças para perdoar, implorai ao Pai mais esta graça e Ele vos abençoará e vos ensinará a serdes mais tolerantes.
Que as bênçãos do Pai vos iluminem e vos banhem com os fluidos maravilhosos de paz e de amor!


(Extraído do livro: As Divinas Parábolas – Autor: Samuel (Espírito), médium: Neusa Aguiló de Souza – Centro Espírita Oriental “Antônio de Pádua”, Recife, PE – 1982, p. 96-100)


JULIO FLÁVIO ROSOLEN é Espírita, participa da Sociedade Espírita Casa do Caminho (SECCA), em Piracicaba, Estado de São Paulo, é Coronel (da Reserva) do Corpo de Bombeiros.

Comentários sobre a Parábola do Filho Pródigo

Comentários sobre a Parábola do Filho Pródigo

(Vide abaixo desses comentários trecho do Evangelho de Lucas)

Jesus nos ensinou que há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende, do que por todos os justos que ali estejam. Na Parábola do Filho Pródigo podemos interpretar o “certo homem” como Deus, Nosso Pai e Criador, Senhor de todas as coisas orgânicas e inorgânicas. Desde o átomo e suas partículas mais ínfimas, até do ar que respiramos, da água que bebemos, dos vegetais que nos alimentam, como o oxigênio e as verduras e frutas. Criador das belezas do Céu, do Mar, das Matas, dos Rios e das Flores. Senhor Deus, Nosso Pai dos ensinamentos de Jesus que diz: O Pai trabalha e eu trabalho também.

Dos seres viventes feitos a sua imagem, destacam-se dois filhos: O Pródigo e o Egoísta. Os filhos que possuem toda herança do Criador. Que seriam esses bens? Seriam principalmente, bens espirituais. As maiores dádivas, A FILIAÇÂO DIVINA, O ESPÍRITO IMORTAL, E O LIVRE ARBITRIO.

Mas o filho mais moço estava inquieto. Queria sair e conhecer outras paragens. Ser senhor de seus desejos, tomar posse do que lhe pertencia. Assim pensando, pediu ao Pai: - Dá-me a parte que me cabe dos bens. O Senhor deu-lhe os bens pedidos, o anel de príncipe, o manto real, os haveres materiais como jóias etc.

Passados não muitos dias, este filho partiu, para uma terra distante a cata de aventuras.
Por onde teria passado? Por quais terras do universo, por quais paragens? Aqui no orbe terreno? Encarnado? Desencarnado? Que importa, por aqui, por ai, acolá, quem sabe? Só ele e Deus sabem.
O certo é que desceu fundo. Nesses lugares conheceu amigos e inimigos, influenciou e foi influenciado, negativa ou positivamente. O certo é que não soube com tudo isso lidar. Atravessou desertos e planícies, subiu montanhas, e desceu aos valados. Uniu-se aos que iam em caravanas vendendo e comprando. Ou ainda trocando. Conheceu gente boa, mas conheceu gente má também. Foi roubado, pelos salteadores da estrada.

Chegou com seus poucos haveres, em uma grande cidade cercada de altas muralhas e grandes portais. Ali, alugou uma bela residência cheia de quartos e salões, porque pretendia promover grandes festas. Entreter "amigos" com lautos jantares. Muita festa, muita dança, muitos comes e bebes. E assim viveu em dissolutas orgias criminosas. Consumindo, esbanjando, menosprezando todas aquelas dádivas divinas que herdara de seu Augusto Pai.

Desprezou até seu corpo físico com tantas intemperanças praticadas. Começou a sentir-se fraco e dente. Tornou-se pobre, roto, faminto e miserável, e teve que desocupar a bela residência e viver em pensões baratas e sujas. Procurou os amigos de antes, mas como não tinha mais dinheiro, também não tinha mais amigos. Estes lhe voltaram as costas. Aprendeu a lição de que " de onde se tira e não põe, acaba". Experimentou, inevitavelmente, da grande Lei de Justiça (Lei de Causa e Efeito). Continuou descendo, descendo, até ao fundo do abismo.

Conta-nos o Evangelista Lucas, que o Pródigo, sofreu bastante. Estando por longo tempo doente e abatido, chegou a ser preso, porque acharam que era um vadio qualquer. Andou ao léu, e depois de percorrer tortuosos caminhos de dores amargas acercou-se de um pequeno sitio, onde eram criados porcos.

Na porteira, titubeou em apresentar-se ao dono da chácara, com receio de ser mal interpretado. Bateu palmas e o dono lá de longe disse:

- Não queremos vadios ou mendigos por aqui, vá andando.

- Senhor, disse o Pródigo, não sou vadio ou mendigo. Estou faminto é bem verdade, mas procuro trabalho, não se preocupe. Se me deres trabalho tratarei dos porcos e comerei das alfarrobas que os alimentam.

E ali ficou por algum temo meditando sobre sua vida e fez um retrospecto nos acontecimentos vividos. Racionalizando, lembrou com saudades de seu bondoso Pai e de seu lar cheio de beleza e fartura, onde os empregados, tinham comida abundante. Arrependido e lembrando-se de que o Pai lhe dissera, que quando quisesse voltar, poderia, que ele estaria esperando-o de braços abertos.

Voltarei para o meu Pai. E a volta se processou, muito penosa. Séculos e séculos. Encarnações e processos espirituais expiatórios e provas. Tudo para se quitar com a GRANDE LEI DE JUSTIÇA. Em que somos livres para plantar, porem a colheita é obrigatória. Tinha que reconquistar a saúde espiritual e apresentar-se com a túnica nupcial. Mas estava determinado a voltar.

O Pai conhecia amplamente o novo estado de espírito do filho. Sentiu como Pai amoroso e justo a sua decisiva transformação. E vinha ele longe, na caminhada evolutiva e o Pai já o avistara e esperava. Compadecido dele, correndo o abraçou e beijou, sentindo naquela alma a maior sinceridade. Do seu coração magnânimo partiram eflúvios benditos de amor. E o filho lhe disse:

- Pai, pequei contra o Céu e contra Ti. Já não sou digno de ser chamado Teu filho. Trata-me como a um de teus trabalhadores.

O Pai compadecido disse:

- Filho estas novamente em teu Lar. Voltas-te para o que é teu.

E chamando os servos, disse-lhes:
- Trazei depressa a melhor roupa. Vesti-o, pondo-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Regozijemo-nos também com uma grande festa. Porque este meu filho estava morto e viveu, estava perdido e foi achado.

Há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende, do que por todos os justos que ali estão.

O bom filho a casa torna.

A melhor roupa é a túnica nupcial que é a luz do espírito.

O anel representa o brasão de príncipe.

As sandálias representam a proteção espiritual, merecida pelo filho.

Estava o filho mais velho (Filho Egoísta) no campo e quando voltava, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou o que era aquilo. O criado informou:

- Veio o teu irmão e teu Pai mandou matar um novilho cevado, porque o recuperou com saúde.

Ele se indignou e não queria entrar, saindo o Pai que procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu Pai:

- Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma de tuas ordens e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos. Vindo porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele um novilho cevado.

Então lhe respondeu o Pai:

- Meu filho, tudo o que é meu é teu. Entretanto é preciso que nos alegremos, porque esse teu irmão, estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

O egoísta mostra-se magoado e protesta. Retruca o Pai:

- É certo que não dissipaste os bens herdado mas por isso nada sofrestes. Ao passo que teu irmão, suportou todos os revezes e torturas originários dos erros que cometeu. Hoje é sábio pela experiência adquirida Virtuoso, pelo sofrimento suportado. Puro, graças ao batismo do fogo, que recebeu através do cadinho da dor. Hoje regressa ele ao Lar paterno mansão de todos os filhos, qual perdido, encontrado, qual morto, redivivo. É um ato de justiça, portanto, a expansão de amor com que o recebi.

Os dois irmãos representam a humanidade.

O Pródigo é a fiel imagem dos pecadores, cujas faltas, transparecem, ressaltam logo a primeira vista. Semelhantes transviados, deixam-se arrastar ao sabor das intemperanças, como barcos que vagam a mercê das ondas sem leme e sem bússola. Sabem que são pecadores, estão cônscios das próprias imperfeições e comumente ostentam para os que têm olhos de ver, apesar de graves faltas, apreciáveis Virtudes.

Já o filho mais velho, o Egoísta, é a perfeita encarnação dos pecadores que se julgam isentos de culpa. Protótipos das virtudes, únicos herdeiros das bem-aventuranças eternas, pelo fato de se haverem abstido do mal. São os orgulhosos, os exclusivistas os sectários que se apartam dos demais para não se contaminarem, como faziam os fariseus que desprezavam os samaritanos. E o fariseu que orava no Templo, quando Jesus nos faz lembrar que quem se humilha, será exaltado e quem se exalta será humilhado. O Pródigo, ao seu ver, deve ser excluído do Lar. Não vêem ligação alguma de solidariedade entre os membros da família humana. Quando se refere ao Pródigo, diz: "esse teu filho". Descrêem da reabilitação dos culpados. Imaginam-se no alto e os demais em baixo.

O mal do Egoísta é muito mais profundo, está muito mais radicado que o do Pródigo. O Pródigo tem qualidades ao lado de defeitos. O Egoísta não tem vícios, mas igualmente não tem virtudes. O Egoísta não esbanja os dons: esconde-os, como os avarentos escondem as moedas. Não mata, porém é incapaz de arriscar um fio de cabelo para salvar alguém. Não rouba, mas também não dá. Tais pecadores acham-se, por isso, mais longe de Deus que os demais, apesar das aparências denunciarem o contrário (lembrar que parecer não é ser).

As virtudes são mais facilmente simuladas do que adquiridas. Quem simula, quer parecer. Quem adquire é Virtuoso. A prova está em que as íntimas simpatias, de todos que lêem a Parábola, se inclinam para o Pródigo, num movimento natural e espontâneo à escolha do coração. Depois, nós pecadores confessos, vemos, na vida do Pródigo, a nossa própria história. Sua epopéia é a nossa esperança. Eis porque com ele tanto simpatizamos.

(Referências: Comentários da Parábola por Vinícius, em seu livro Nas Pegadas do Mestre, Cap. 22, disponível em http://lubeheraborde.blogspot.com [03 jul 2009])

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO*
(Bíblia com tradução de João Ferreira de Almeida)
* Sinônimo de Pródigo: Perdulário, Dissipador, Esbanjador

LUCAS [15]
11 Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos.
12 O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.
13 Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
14 E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades.
15 Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.
16 E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada.
17 Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!
18 Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
19 já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.
20 Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
21 Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
22 Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés;
23 trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos,
24 porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se.
25 Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças;
26 e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo.
27 Respondeu-lhe este: Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.
28 Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele.
29 Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos;
30 vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
31 Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu;
32 era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.

O filho pródigo e a bênção do perdão

O filho pródigo e a bênção do perdão

Durante suas prédicas espiritualistas em todos os locais em que passava, Jesus falava quase sempre de maneira indireta, por parábolas, uma espécie de figuração em forma de histórias curtas, que talvez na sua época, não tenham sido bem assimiladas, mas com o passar dos anos, descobriu-se que elas continham ensinamentos valiosos e profundos, embutidos de uma maneira sutil e dinâmica, que os interessados no seu Evangelho de Amor podem visualizar.
Uma dessas parábolas foi a do filho pródigo, que ganhou notoriedade por se tratar da ingratidão, e ao mesmo tempo do perdão, no seguinte relato evangélico:

Um pai amoroso, dono de uma fazenda com muitas terras, tinha dois filhos que o ajudavam na administração, no cultivo das terras, no plantio e na colheita dos cereais, e ainda no controle dos empregados.
Era uma propriedade próspera e feliz, em que todos os componentes daquela sociedade viviam bem, com fartura de tudo, nada faltando para o dono das terras, sua família e aos empregados, que também gozavam da abundância que reinava naquele recanto isolado das grandes cidades.
Quando completou 25 anos, o filho mais novo do fazendeiro, exatamente aquele em que o pai depositava maior confiança, se dirigiu ao seu genitor e falou: “Pai, até o dia de hoje eu o servi e trabalhei incansavelmente na fazenda, ajudando-a a progredir e prosperar, usando minha força jovem em todo o tipo de trabalho sem reclamar. Mas sempre tive a vontade de conhecer lugares novos, outras pessoas; viajar pelo mundo sem destino, até saber o que eu realmente quero para minha vida. Por isso, queria pedir ao Senhor que calculasse o valor da herança a que tenho direito, por ser seu filho legítimo, e me adiantasse o que é meu por direito, afim de que eu possa seguir destino. Se tudo der errado, eu volto, e tenho certeza que o Senhor me receberá de braços abertos, e mesmo tendo sofrido decepções, eu estarei feliz por ter sido dado a mim o direito de escolher minha vida e o meu destino”.
O velho pai não disse uma única palavra, e simplesmente retirou de um cofre velho uma grande quantia em dinheiro, dando-a ao filho, mas recomendando que ele agisse fora de casa, exatamente como fazia na fazenda, respeitando todos e tudo, não se envolvendo em brigas, jogo, álcool e drogas. Pediu ainda, que aceitasse qualquer tipo de trabalho, não recusando serviço, principalmente se tratasse de sua sobrevivência, abençoando-o em seguida, desejando-lhe muita sorte.
O jovem aventureiro passou por muitas cidades e alguns países, percorrendo vilas e fazendas, gastando gradativamente os recursos que o pai lhe ofertara, sem observar que aonde tira e nada põe, pode acabar, e foi o que aconteceu; o dinheiro acabou, e ele teve que voltar a trabalhar para o seu próprio sustento. A partir daí começou sua via sacra, pois em nenhuma fazenda ou local de trabalho encontrou o clima de amizade e respeito, carinho e solidariedade que tinha na fazenda do pai, pois os patrões exigiam muito e não pagavam quase nada.
Tanto andou na busca de alguma coisa que se comparasse à fazenda do seu pai, que foi parar numa zona desértica, gelada, cuja temperatura se aproximava de 30 graus negativos. Nesse local não havia quase que trabalho nenhum, e o único serviço que arranjou foi o de cuidador de porcos, e sua alimentação era a dos próprios porcos, tendo que dormir junto a eles, nenhuma proteção do frio e das intempéries da natureza. Começou a questionar que o seu sofrimento estava relacionado com o seu abandono da casa paterna, resolvendo então voltar para casa e pedir perdão ao seu pai, além de se oferecer para trabalhar como peão, sem nenhuma renumeração, só em troca da alimentação.
Depois de uma jornada terrível de peregrinação, vivendo de esmolas e ajuda alheia, esfarrapado, sujo e doentio, chegou finalmente à casa do pai, depois de longos anos ausente, onde só foi reconhecido pelos empregados, depois de dizer quem era. Ao saber da chegada do filho, o pai correu ao seu encontro, abraçando-o e chorando copiosamente enquanto o abraçava e o beijava. Mandou então que um dos empregados o levasse ao banheiro, onde recebeu um longo banho, vestindo roupas novas e quentes.
Em seguida, o dono da fazenda chamou seu homem de confiança e disse: “Prepare uma festa como nunca tivemos antes; convide todos os meus vizinhos; mate quantos bois forem necessários; prepare iguarias de todos os tipos, vinhos e fogos de artifícios, porque quero comemorar a chegada do meu filho que estava ausente”.
Ao saber da chegada do irmão mais novo, que dilapidara a fortuna do pai e voltara como mendigo, e ainda assim estava ganhando uma festa, o irmão mais velho, que nunca se afastara de casa e nem gastara nada do pai, questionou o fazendeiro: “Pai, nunca saí da minha casa, sempre estive com o senhor; nunca dilapidei nenhum recurso da fazenda e nunca ganhei nenhuma festa, nem mesmo nos meus aniversários”. E o pai respondeu: “Filho, você sempre esteve comigo, tem sido esse filho obediente e amoroso e nunca me preocupei com você, mas seu irmão estava perdido e se achou, estava morto e agora está vivo entre nós!”.

Em síntese, Jesus quis dizer que Deus nunca abandona seus filhos, por mais rebeldes que sejam, e dá sempre preferência aos que estão mais afastados do pai, e por isso o próprio Jesus afirmou que “não necessitam de médicos os sãos, e sim os doentes”. As ovelhas desgarradas do rebanho divino são as que merecem maior atenção, porque nenhuma delas se perderá, e Deus espera pacientemente nossa mudança de postura diante da vida e diante dele, para então nos dar os recursos necessários à nossa evolução física e espiritual.

Reflexão sobre o Orgulho e a Parábola do Filho Pródigo

Reflexão sobre o Orgulho e a Parábola do Filho Pródigo


Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres. Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados. Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. - Lucas 15:11-21

Durante o período da semana santa, em meio a muitas reflexões, me peguei pensando sobre a parábola do filho pródigo de uma forma diferente e focando em um aspecto que passa muitas vezes despercebido para a maioria das pessoas.


Diversas escolhas que fazemos na vida se mostram depois erros enormes, mas condignos com nosso estado de evolução espiritual. Errar é ainda uma constante para nós e por isso uma enorme fonte de aprendizado, mas entre o erro e o aprendizado existem certas etapas que muitas vezes não cumprimos e buscamos pular, isso quando não permanecemos no erro por orgulho.


É nesse ponto em que chamo atenção para a parábola, muitas vezes tomamos caminhos errados inebriados pelas alegrias que esperamos, mas quando o erro se evidencia e nos vemos frente a frente com nossas misérias é difícil lembrarmos de nossa filiação Divina e é aí que podemos passar muito tempo nos contentando com a comida dos porcos que passamos a achar que é o melhor que o mundo pode oferecer ou que é o que nós merecemos por conta da culpa, as vezes por vergonha e orgulho de fazermos o caminho de volta para nós mesmos, encararmos nossos erros e retomarmos parte no banquete da vida que Deus nos reserva.


Faz-se necessário que façamos esse caminho de volta o mais rápido possível, superando o orgulho e a culpa, encarando nossos erros de frente e reconhecendo nossa condição humana ainda falível, mas também nossa condição de filhos de Deus destinados à felicidade que depende apenas de nós alcançar.


Assim meus amigos lembro da importância de após o erro fazermos esse caminho de volta para o banquete da vida, abandonarmos a lavagem dos porcos, reconhecermos o erro aprendendo com ele e voltarmos à vida plena e rica de experiências sem nenhuma culpa, mas mais conscientes de buscarmos sempre fazermos escolhas melhores que nos mantenham no caminho certo que é aquele que seguimos cumprindo as Leis de Deus.

Parábola do filho pródigo


1. O tema deste estudo é a misericórdia. Na verdade é a misericórdia do pai , que permite que seu filho viva plenamente, mesmo de modo errado. Os séculos passam, mas as grandes lições não envelhecem, pois retratam a eterna luta da alma humana para libertar-se do primarismo evolutivo. A Parábola do Filho Pródigo é uma dessas lições, e é um solene e formal desmentido às penas eternas. Esta parábola ao mesmo tempo em que é uma amostra do grande amor de Deus por cada um de nós, também nos leva a refletir sobre o grande pecado da rebeldia e do orgulho que está inoculado em nós. Ela é o drama da evolução do Espírito, através de erros humanos, para a verdade divina.
2. Certa vez, cobradores de impostos e pecadores se aproximaram de Jesus para escutá-lo. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuraram entre si criticando o Cristo, dizendo: Esse homem acolhe pecadores e come com eles! Então o Mestre propôs-lhes três parábolas seguidas. (Lucas, XV:1-32). A parábola da ovelha desgarrada, da dracma perdida e do filho pródigo. Há semelhança entre as três, que se relacionam entre si. Todas falam do resgate daquele que se desviou do caminho, e da necessidade de arrependimento. A primeira trata de uma ovelha que se dispersa do rebanho. Disse Jesus: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros. Chegando em casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer:
3. Alegrem-se comigo! Eu encontrei a minha ovelha que estava perdida. E eu lhes declaro: Assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. Já a segunda versa sobre uma mulher que verifica ter perdido uma dracma (antiga moeda grega de prata). Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: Alegrem-se comigo! Eu encontrei a moeda que tinha perdido. E eu lhes declaro: Os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte. Entretanto, a parábola do filho pródigo é a mais longa, com mais pormenores e ensino mais profundo, e quem se perde é um homem.
4. Muitas pessoas não sabem o que significa a palavra pródigo, que aparece no título que é dado a essa parábola. Pródigo significa que “Gasta demais”, “Esbanjador”. As parábolas da ovelha e da dracma perdidas e do filho pródigo, apresentam em traços claros o misericordioso amor de Deus para com os que d’Ele se desviam. Eis a parábola do nosso estudo: Um homem tinha dois filhos; o mais jovem disse ao pai: - Pai, me dá a parte da herança que me cabe. E o pai dividiu os bens entre eles. Passados alguns dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para um lugar distante, para viver sua vida como achava que deveria viver, e, lá, dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente.
5. Depois de ter consumido tudo o que possuía, sobreveio uma grande fome nessa região, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi se agregar a um homem daquele lugar, e este o mandou para seu campo, para cuidar dos porcos. Ali ele queria matar a fome com a lavagem que os suínos comiam, mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: - quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: - pai, pequei contra Deus e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi ao encontro de seu pai. Quando ainda estava longe, o pai o avistou, e teve compaixão.
6. Saiu correndo, o abraçou, e o cobriu de beijos. Então o filho disse: - Pai pequei contra Deus e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos empregados: - Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho, e coloquem um anel no seu dedo, e sandálias nos pés. Peguem o novilho cevado e o matem. Vamos fazer um banquete, porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado. E começaram a festa. O filho mais velho estava na roça. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: - É seu irmão que voltou. E seu pai, porque o recuperou são e salvo, matou um novilho cevado.
7. Então o irmão ficou com raiva, e não queria entrar em casa. O pai insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: - Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele um novilho cevado. Então o pai lhe disse: - Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado. Talvez, essa seja a parábola capaz de nos dar o maior número de lições entre todas, pois é muito rica em ensinamentos. E destaco alguns para nossa edificação.
8. Ela nos apresenta o procedimento de Deus com aqueles que uma vez conheceram o amor paterno, mas consentiram que o orgulho e a vaidade os levassem cativos a sua vontade. Talvez, Lucas nos queira apresentar o rosto paterno de Deus que, movido pela compaixão, princípio ativo da misericórdia, vai ao encontro do que estava perdido. Não para condenar, culpar, senão para salvar, amar. E, aí, está a sua alegria. Esse permanente amor de Deus que vai ao encontro de seus filhos, não importando onde se encontrem, é o que moveu Jesus durante sua vida pública, e há de ser também o que move seus discípulos de todos os tempos. Esta parábola mostra Deus na figura do pai. E mostra cada um de nós ou na figura do filho mais velho, que rejeita a conversão do irmão, ou na figura do filho mais novo, que vive uma vida cheia de equívocos.
9. Nesta parábola encontramos três personagens: o filho mais novo, o que se foi; o pai e o filho mais velho, que ficou. No início, os personagens são apenas dois: o pai, bom e generoso, que ensinou aos filhos a Lei de Deus, e o filho mais novo, cheio de vigor e ambição, o qual, com o despertar da personalidade, e dominado pelo impulso de ser livre, resolveu agir por conta própria. O filho mais velho, de início, não tem um papel importante na história. Se ele compartilhou a dor do seu pai com a partida repentina do seu irmão ou o seu anseio por ele durante a sua ausência, o evangelista não contou. É aqui que a trama da parábola tem seu ponto relevante. Independente de quanto é comovente a saga do filho mais novo, o filho mais velho é o verdadeiro foco da parábola.
10. O filho pródigo foi acusado de dissipar a sua herança, de abandonar a casa do pai, e viver dissolutamente. Seu irmão mais velho, que ficou em casa, não esbanjou os seus bens nem abandonou o lar paterno. Porém, tempos depois, sua atitude grosseira tanto para com seu pai como para com seu irmão, que voltara arrependido, renunciando até o direito de filho, demonstra que ele era mais pródigo do que o que deixara o lar. O irmão mais novo era pródigo por ter dissipado sua herança; o mais velho era pródigo por dissipar a oportunidade de demonstrar o seu amor, a misericórdia e o perdão. A sua falta de amor para com o irmão e a desobediência para com seu pai são provas de sua prodigalidade.
11. O filho mais moço cansara-se da casa paterna. Via o pai como alguém rude, incapaz de compartilhar todos os bens. Por isso, exigiu a sua parte na herança, naturalmente pensando que sua liberdade era reprimida. O amor e o cuidado do pai foram mal interpretados, e determinou seguir os ditames de sua própria inclinação. O jovem não reconheceu nenhuma obrigação para com o pai, e não exprimiu gratidão, contudo, reclamou o privilégio de filho para participar nos bens de seu genitor. A rebeldia estava nele, que descumprindo a lei judaica, se torna herdeiro antes da morte do pai. Ele viaja para um lugar longínquo. Lá, esquece o pai e seus ensinamentos; usa equivocadamente seu livre-arbítrio na satisfação de seus sentidos; dissipou o bem com sua devassidão; e passa por suprema humilhação ao ir cuidar dos porcos, pois os porcos eram considerados animais imundos;
12. Fracassou; foi mal sucedido e, sentindo na carne os efeitos da sua rebeldia, arrependeu-se; reconheceu o erro grave, e, constrangido, lembra-se da casa do pai e decide regressar, esperando ser abrigado apenas como um dos empregados da propriedade. Consciente de tudo quanto havia feito de errado, regressou, confiando apenas na solidariedade humana do seu genitor. Nunca pensou que seria acolhido com um abraço de pai. A sua decisão marca o fim da sua descida moral e o início da ascensão. Um outro ponto interessante para reflexão reside no comportamento do filho que ficou em casa. Em um primeiro momento, ele parece mais equilibrado do que seu irmão mais moço. Satisfeito com a disciplina da casa paterna, não se entusiasmou com a perspectiva de festas e desfrutes.
13. Enquanto o denominado filho pródigo ganhava o mundo, ele permanecia vivendo de forma equilibrada. Entretanto, esse equilíbrio é colocado à prova quando o seu irmão retorna, sofrido e humilhado. Por sua vez, orgulhoso e pretencioso, informado do acontecido, em vez de se alegrar com aquele retorno, reage negativamente, com indignação, com inveja e ciúme do irmão mais moço. Sendo correto e cumpridor das suas obrigações, ele não entendia porque razão o pai teria que oferecer uma festa para aquele filho ingrato e irresponsável. E, em atitude infantil, recusa-se a entrar em casa e participar da festa. Instado pelo pai a retificar o seu comportamento, dá mostras de rancor ao falar de sua prolongada obediência, a seu ver, sem recompensas. Qualifica o pai de injusto. Ele procede como quem lastima o dever cumprido, e desestimando a própria virtude.
14. Assim, também nós pensamos e agimos: ou queremos liberdade e independência para provar de tudo que o mundo nos oferece, e darmos as costas para Deus ou então, ficamos na casa do pai por obrigação. Não se esqueça: O Pai está sempre de braços abertos para acolher o nosso arrependimento e, espera por nós, a cada instante da nossa vida. Reflita: Você se sente como o filho mais velho ou como o filho pródigo? Qual dos dois sentiu mais o amor de Deus? Muita Paz! Jesus, rogamos a luz e o amparo que precisamos, nós que aqui estamos ligados ao pesado fardo da matéria.
15. Refrigera-nos o espírito, amenizando as dores e sofrimentos de todos nós. Pedimos que possa haver mais esperança em nossos corações; que possa haver mais fé em nossos espíritos; que possa haver mais entendimento e caridade em nossas ações, tudo conforme a vontade de Deus, nosso Pai. Que os mensageiros da boa vontade de Jesus possam enviar o bálsamo que cada um de nós necessita para o refazimento da jornada que nos é própria. E, que, nessa semana que se inicia, possamos vivificar e aprender, levando a todos com quem vamos nos encontrar, a mensagem do trabalho contínuo, da melhoria, da paz, do amor e da caridade. Que assim seja! Meu Blog: http://espiritual-espiritual.blogspot.com.br

O retorno do filho pródigo

Dos diversos trabalhadores espíritas sob a avaliação de Bezerra e seus auxiliares, Comélia era a que estava enfrentando as maiores dores morais no testemunho de sua fé.

Comélia afastara-se do trabalho mediúnico direto havia quase um ano em decorrência da tragédia familiar que vivia, relacionada ao filho Marcelo, que lhe exigia cuidados intensos. Jamais a doutrina espírita lhe fizera tanto sentido quanto agora, envolvida pelas dobras da dor e do resgate na própria carne. Por isso, apesar de não comparecer ao centro para os trabalhos normais, mantinha-se fiel aos ensinamentos de amor e renúncia nos quais era acompanhada por seu esposo Lauro que, diferente dela, nunca se filiara a qualquer igreja ou prática religiosa formal.

A história de Marcelo e o drama familiar que o envolvia expressava o sofrimento de tantos pais e irmãos inseridos no contexto da dor sem remédio que vitima, em geral, os membros mais inexperientes no entendimento das coisas elevadas do Espírito.

Marcelo, um dos filhos do casal Comélia e Lauro, rapaz imaturo e pouco afeito às coisas espirituais, desde cedo declarara a própria independência, desejando buscar a liberdade da rua, onde daria vazão às próprias inclinações sem se sentir vigiado pelos olhares paternos nem atormentado pelos deveres familiares, notadamente o de conduzir-se de acordo com os ensinamentos recebidos.

Tratava-se de um espírito sem compromissos sérios com a vida e que trazia em seu passado diversas peregrinações pelas facilidades destruidoras do caráter sadio. A presente encarnação fora planejada de modo que a sua insana busca por aventuras desaguasse na oportunidade de reerguimento, na companhia de pais humildes e disciplinadores, conquanto amorosos e vigilantes, visando a sua própria edificação. Renascido em lar simples, sem as facilidades econômicas do passado, lar esse que dependia do trabalho de seus membros para ser abastecido dos recursos materiais indispensáveis à manutenção de seus integrantes, revoltava-o o fato de todos precisarem trabalhar com afinco e, depois, compartilhar os recursos pessoais para cooperar com o progresso comum. Comida, roupas, eletricidade, telefone, escola, tudo dependia do esforço compartilhado, não havendo espaço para a ociosidade de ninguém. De espírito fraco, Marcelo não se conformava com o que o destino lhe oferecia, no caminho áspero do trabalho, como a estrada dura e a disciplina como o meio de tornar-se melhor. Não aceitava trabalhar para todos nem privar-se das facilidades que sua alma almejava desfrutar novamente. Por isso, assim que se viu com idade suficiente e com recursos financeiros que lhe garantissem o próprio sustento, afastou-se do ambiente familiar onde era querido, onde encontrava amigos sinceros e amorosos que velavam por sua segurança e onde, fatalmente, conseguiria enfrentar a luta contra as próprias inclinações. Com a desculpa da necessidade de espaço ou almejando dar o tão sonhado “grito de liberdade”, embrenhou-se na floresta inóspita do mundo, onde o custo dessa liberdade costuma ser a dor, o sofrimento e a decepção.

Jovem, portanto, transferiu residência em companhia de Alfredo, “amigo” que o acolheu com o compromisso de dividirem despesas.

Infeliz gozador do passado, Marcelo viu, na figura do novo companheiro, a tábua de salvação que poderia livrá-lo das disciplinas da família, que ele considerava um peso, castradora de suas vontades e cheia de limitações ao exercício de sua liberdade. Agora, em companhia do amigo, garantiria para si o “espaço” que sempre pleiteara, considerado como o território para as leviandades ocultas, fora da supervisão de pai e mãe.

Então, não tardou para que, na companhia do rapaz, Marcelo se iniciasse nas facilidades perniciosas do mundo livre. Conheceu pessoas, envolveu-se com mulheres, penetrou o mundo da droga e, de degrau em degrau, foi descendo a ribanceira, envolvendo-se cada vez mais nos cipoais venenosos de vícios e aventuras impróprias, com a desculpa de que deveria provar de tudo para descobrir o sentido da vida sem a interferência de outras pessoas. E com o apoio de um viciado ou de outro pervertido, Marcelo ia reconhecendo o velho mundo, aquele ao qual já havia pertencido outrora, em vidas anteriores, onde viciara-se naquelas atitudes superficiais e perigosas. De nada lhe valeram as advertências dos pais quando de suas escassas visitas à família. Quanto mais os escutava, mais repulsa sentia contra aquele “estilinho” de vida decadente, ultrapassado, no qual dois adultos tinham de guiar os filhos escolhendo seus caminhos. Coisa do passado, forma de viver que, segundo suas idéias, havia perdido a razão de existir. Segundo Marcelo e seus amigos frustrados, a família era uma invenção da sociedade para manter seus membros alienados, onde os mais velhos dominassem os mais novos impedindo-os de se desenvolverem de acordo com suas próprias inclinações naturais. Algo como uma prisão revestida de grades de carinho para melhor controlar a vida dos outros.

Então, com toda essa “filosofia” na cabeça, Marcelo não tinha olhos para perceber o buraco onde ia se afundando. Tudo aquilo que ouvira de seus pais, os conceitos de honestidade, responsabilidade, disciplina, repudiara radicalmente, afastando tudo isso de seus comportamentos. Responsabilidade, caráter, seriedade de conduta, respeito aos semelhantes, eram conceitos da “prisão família” e, portanto, não serviam para nada. Não lhe causaram qualquer constrangimento as doses de bebidas sempre maiores que compartilhava com os “amigões”, nem o batismo nas drogas mais pesadas, que comemorava como um ritual de iniciação no grupo que o acolhera como mais um membro. Não percebia que suas condutas eram motivadas pelo desejo de ser aceito em um outro tipo de “família”. Repudiando a família que o recebera e criara com zelo e carinho, buscava, contraditoriamente, tomar-se membro de outra família, aquela que reunia criaturas despreparadas como ele, frustradas, complexadas, preguiçosas e rebeldes em um único conjunto, no meio do qual poderiam dar vazão aos seus comportamentos nocivos, fazendo tudo o que desejassem sem censuras, livres para o exercício das diversas aberrações. Não se importou quando, da droga fácil, migrou para as orgias sexuais e, junto com ambas, para a prática de delitos visando conseguir os valores para alimentar seus vícios.

Sim. Marcelo havia descido toda a escadaria da decência ao lado dos mesmos amigos, aqueles que considerava a própria família até o dia em que surgiram os primeiros sintomas da debilidade orgânica decorrente da enfermidade do sistema imunológico, demonstrando que o jovem havia antecipado o irremediável encontro com a morte.

Quando as feridas explodiram em sua epiderme, a fraqueza invadiu seus membros e a prostração colou-o à cama, a família dos desajustados expulsou o membro podre de seu seio.

Marcelo foi banido do grupo assim que a ambulância o levou ao hospital. Dali, Marcelo não teria mais para onde voltar. Seus amigos deixaram-no entregue a si mesmo, porque não tinham nenhum interesse em perder a própria liberdade para cuidarem dele.

O amigo Alfredo entregou as coisas de Marcelo na portaria do hospital e, para se livrar de qualquer responsabilidade, deixou o nome e o endereço dos pais do rapaz, como responsáveis por ele. Já havia mais de quatro anos que o filho não mandava notícias nem procurava por ninguém.

Em casa, no entanto, a dor do afastamento fustigava o coração dos pais. Durante as noites, Cornélia e o marido se angustiavam nas horas da oração, meditando no destino do filho, que sabiam não ser dos melhores. Tinham a convicção de que o rapaz era orgulhoso demais para voltar ao seu lar com a cabeça baixa, além do fato de se presumir senhor de si mesmo, para chegar derrotado.

Lauro, o genitor, possuía mais extensa a ferida no coração, porquanto doía-lhe a postura de repúdio de Marcelo perante tudo o que ele e a esposa haviam feito para ajudá-lo. A ausência, o sofrimento que seu egoísmo produzia em seus corações, a distância deliberada, as más companhias, eram estiletes no coração do pai que, apesar disso tudo, ainda o amava como antes. Por isso, incontáveis vezes o pai perambulava pela cidade, sempre pensando poder encontrar o filho por acaso.

Toda procura, no entanto, redundava num grande fracasso.

Marcelo tivera o cuidado de mentir sobre seu endereço para que não fosse encontrado, evitando ser perturbado. Haviam, pois, perdido totalmente o contato, e só quando o filho os procurava é que se reviam. Mas já se haviam passado quatro anos de silêncio. Cornélia, indo ao centro espírita para as reuniões regulares, em todas elas colocava o nome do filho na lista de orações, rogando a ajuda espiritual para a proteção do rapaz. Suas preces eram recolhidas pelos mentores da casa com a emoção dos que admiram o amor puro que brota do coração materno ou paterno, ainda que por aqueles que não se fizeram dignos de serem amados. Equiparado ao Amor de Deus por seus filhos transviados, o amor de Cornélia era exemplo para os próprios espíritos, que tudo faziam para acalmá-la tanto quanto ao esposo que, em casa, não havia amadurecido para o interesse espiritual, apesar de acompanhar Cornélia eventualmente, como ouvinte de palestras e recebedor de passes.

Ao longo dos anos, a preocupação acerca dos destinos de Marcelo haviam avassalado os pensamentos e desejos de Cornélia de tal forma que, durante a noite, seu espírito, ao invés de ir aos trabalhos da instituição onde era esperada para o desempenho das tarefas que lhe eram próprias, saía pelas ruas na busca do filho perdido.

Entidades nobres que velavam seus passos a seguiam controlando-a e protegendo-a de ataques de espíritos agressores, uma vez que desejavam impedir que, mesmo em espírito, Cornélia vislumbrasse a real condição do filho amado.

Então, as noites eram infindáveis caminhadas, de becos em becos, expondo-se aos encontros mais assustadores. Nada disso, entretanto, diminuía nela a determinação de encontrar o pobre e infeliz Marcelo.

O regresso ao corpo no dia seguinte era carregado de um sentimento de tristeza, apesar do amparo que seu protetor espiritual lhe estendia incessantemente. O Amor de Cornélia e a proteção dos Amigos Invisíveis era o escudo de sua alma contra os ataques das vibrações trevosas dos lugares onde se metia.

Algumas vezes, durante o sono, os amigos a procuravam, convocando-a para voltar ao trabalho. Apesar de aceder ao convite por alguns dias, eis que, logo depois, voltava Cornélia a ausentar-se dos deveres, demandando continuar as buscas infrutíferas.

Tudo ia nesse passo, quando um telefonema do hospital trouxe a notícia do paradeiro de Marcelo.

Ninguém se apresentava para retirar aquele trapo de gente, nem o setor de assistência social sabia .do paradeiro dos amigos a quem Marcelo, insistentemente, pedia que fossem chamados para retirá-lo daquele lugar. Não queria que os pais o vissem nem que recebessem qualquer solicitação. Aquilo seria a maior vergonha de sua vida, no orgulho gigantesco ferido pela derrocada total.

No entanto, mesmo proibidos pelo enfermo de procurarem a família, não restou outra alternativa à direção hospitalar do que comunicar-se com os pais para informá-los da condição do filho doente.

Marcelo, nessa época, já era homem feito, com seus vinte e cinco anos corroídos pelo “estilo de vida” que adotara. Porém, o destino que o esperava – A MORTE FÍSICA – iria encontrá-lo em qualquer parte em poucos meses.

As dores e feridas estavam controladas com medicamentos, mas a fraqueza persistia, e a falta de forças físicas impedia as suas reações nervosas. Então, não protestou contra o hospital quando lhe disseram que seus pais haviam sido informados tanto de seu paradeiro quanto de sua situação.

Cornélia e seu marido imediatamente correram para a casa de saúde, com o coração apertado pela dor de quem ama e pela notícia trágica do fim das forças do rapaz.

Lauro carregava no coração uma ansiedade mesclada com revolta por tudo o que o filho ingrato fizera sua mãe e ele próprio sofrerem.

–    Por que ficou tanto tempo longe, sem dar qualquer notícia? Somos nós quem mais o amamos na Terra. Por que fez isso conosco? – eram os pensamentos do pai que, nesse momento, procurava calar a insatisfação para que não perturbasse o reencontro que os esperava no hospital.

Aquele momento, fatalmente, seria muito difícil para as partes, mas, tanto ela quanto Lauro estavam amparados pelo amor de Ribeiro que, acompanhando o caso desde o princípio, sabia que Marcelo precisava do sofrimento a fim de que recomeçasse o trajeto da subida espiritual.

Muitas vezes se faz necessário esgotar todo o combustível de insanidades para que a alma se declare, finalmente, cansada das leviandades, tendo bebido todo o fel do cálice de desgostos com o qual se desilude das ilusões cultivadas e das facilidades buscadas com avidez.

O    quarto coletivo já intimidava os visitantes pelo volume de dor ali acumulada tanto quanto pelas condições dolorosas dos ali abrigados, todos em estado terminal.

Marcelo não sabia como se dirigir aos seus pais. Tinha consciência de que era um farrapo humano. Apesar disso, orgulho ainda existia como vestimenta defeituosa da alma, a lutar contra a renovação do espírito. Porém, chegara a hora das verdades e estava encerrado o tempo das fantasias.

Cornélia dirigiu-se ao leito do filho, no encontro doloroso do Amor com a Imaturidade.

–    Marcelo, meu filho – foram as únicas palavras que conseguiu dizer, enquanto tentava conter na garganta o choro convulsivo diante do estado aflitivo do rapaz.

–    Mãe… – falou a voz fraca do rapaz não parece, mas sou eu mesmo… Pai… estou morrendo…

As frases curtas do enfermo eram estiletes no coração dos que o amavam.

Ali estava a família verdadeira. Aquela que não fugia dos compromissos do Bem e que receberia os seus membros derrotados para ajudá-los a se reerguerem.

A presença de Lauro e Cornélia ao seu lado, depois que todos os seus amigos o abandonaram sem qualquer explicação, teve o condão de trazer Marcelo ao entendimento do quanto estivera errado em seus conceitos sobre o lar, ao longo de tantos anos de loucuras. Sua carência física e emocional fizeram brotar, pela primeira vez em muito tempo, as lágrimas do arrependimento. E sem palavras nem discursos, pai e mãe se inclinaram sobre o corpo do filho, juntando suas lágrimas às do moço desditoso. Não lhes incomodava nem o mau cheiro de suas feridas, nem o risco de contágio, nem a sua aparência de cadáver.

Seus pais o amavam, mesmo depois de quatro anos de fuga e indiferença, de arrogância e erros. Nenhum dos dois recordava o passado. Não era mais necessário voltar ao ontem para saber quem havia acertado e quem havia errado.

Essa era a certeza mais importante desse reencontro. Marcelo estava necessitando deles e isso era tudo. Então, depois de se recomporem e de transformar em felicidade aquele momento doloroso, Lauro saiu em busca da direção médica, responsável pelo rapaz.

Assim que o médico chegou no quarto, Lauro lhe disse:

–    Doutor, eu e minha esposa desejamos autorização para levar Marcelo de volta à sua casa, à nossa casa.

Ouvindo aquelas palavras, o próprio doente se sentiu no dever de protestar:

–    Mas pai, eu não tenho casa. Estou este trapo de gente apodrecendo vivo. Não é justo que vocês me levem para lá… Chorava de vergonha. Soluçava, no esforço de resgatar um mínimo de decência.

–    Não, meu filho, este bendito hospital que tem cuidado de você é uma casa abençoada, mas, lar é lar, não é mesmo, doutor? – perguntou Cornélia, emocionada com a reação do próprio marido, reação que ela mesma não esperava, diante das manifestações de contrariedade que Lauro sempre demonstrava ao falar de Marcelo.

– Bem… sim. – disse o médico, um pouco relutante – a casa dos pais é o porto seguro que todos nós jamais esqueceremos. O problema são os cuidados que Marcelo exige.

–    Não importa, doutor. O senhor nos explica o que é preciso fazer e a gente cuida dele como se fosse no hospital -falou Lauro, decidido.

Sabendo que o rapaz não teria muito tempo de vida mesmo, e que o hospital necessitava daquele leito para atender um outro paciente que, como Marcelo, também não teria muitos amigos para acolhê-lo, o médico se prontificou a explicar como deveriam proceder. Para isso, pediu licença ao doente, afastando-se na companhia dos visitantes para fora do quarto, onde poderia falar com franqueza.

Marcelo, por sua vez, não estava iludido quanto ao que o esperava. Havia visto aquela enfermidade vitimar o corpo de muitos rapazes e moças. Visitara alguns deles antes da morte e, por isso, sabia que seu tempo se esgotava. No entanto, jamais imaginara que poderia, um dia, morrer em casa, ao invés de perecer isolado e anônimo, no meio de estranhos num hospital qualquer do mundo.

Seu coração, emocionado, continuava a produzir as lágrimas de arrependimento. Ribeiro, em espírito ao seu lado, alisava seus poucos e desgrenhados cabelos, infundindo-lhe novas energias para o aproveitamento máximo daquele final de estágio reencarnatório.

Ao influxo do amigo espiritual, Marcelo acomodou-se em sereno repouso, como se a esperança viesse a acender a luz da paz no coração. Certamente morreria pelas próprias culpas e excessos. No entanto, morreria nos braços de sua família verdadeira. Poderia pedir desculpas, conseguiria redimir-se ao menos pelas palavras e, quem sabe, servir de exemplo para os que, jovens e irresponsáveis, se iludiam com uma falsa liberdade, aquela que era usada como arma e não como instrumento de crescimento.

Mais do que nunca, agora, sonhava em voltar para casa. Mesmo que fosse para aguentar as acusações de seus irmãos, de ouvir os juízos maus e condenadores de todos quantos não fossem capazes de perdoar-lhe a insânia.

Não se importaria com nada. Procuraria amar a todos, mesmo àqueles que não o aceitassem. Sabia que tinha culpa nisso tudo e, portanto, compreenderia com humildade e aguentaria o que tivesse de suportar. Todo sacrifício valeria a pena para poder estar, novamente, sob os cuidados de Cornélia e Lauro.

Lá fora, o diálogo com o médico foi aberto:

–    Preciso informá-los de que Marcelo não deverá viver mais do que um ou dois meses. As crises serão maiores, seu corpo frágil se ressentirá de diversas infecções e, por isso, quanto menos exposição externa, menores riscos para a sua precária saúde. Poderemos colocar à disposição de vocês aparelhos que monitorem algumas funções de Marcelo e qualquer emergência a ambulância poderá trazê-lo para cá. Será necessário realizar sua higiene íntima com muito cuidado para que as fezes não contaminem as feridas abertas.

–    Doutor, nós faremos tudo o que for necessário, conforme as suas orientações de que, aliás, muito necessitamos também. Queremos, sim, levar nosso Marcelo para casa.

–    Pois bem, senhor Lauro e dona Cornélia. Vamos providenciar a remoção. Acho que um de vocês precisará ir com ele na ambulância enquanto seria bom que o outro fosse embora, providenciar um lugar adequado para receber o doente. Seria importante que ele ficasse em um quarto com banheiro próximo para facilitar as coisas.

Cornélia olhou para Lauro, como a lhe dizer que era no quarto do casal que o filho ficaria. A cama mais larga e o banheiro acoplado facilitariam todos os cuidados, realmente. Ela e Lauro se revezariam, um dormindo no quarto, em uma poltrona, e o outro no sofá da sala ou no outro quarto da casa, ocupado pelo irmão mais novo, o único que ainda morava com os pais.

Cornélia resolveu dirigir-se para casa a fim de organizar as coisas, preparando o ambiente e os membros da família para o retorno do filho perdido. Lauro permaneceria no hospital assinando os documentos finais e acompanhando o traslado daquele tesouro de amor que recuperaram do lodo, ainda que fosse para tê-lo em suas mãos por apenas mais trinta ou sessenta dias.

A disposição dos dois enchia o coração do filho de esperança e paz.

–    Por fim, uma família de verdade – pensava o doente

a família que eu sempre tive, mas não sabia que tinha. Obrigado, meu Deus, obrigado por esta bênção que eu não mereço.

Era a oração que o jovem, descrente inveterado, agora ensaiava com o pensamento, descobrindo o poder do amor como mecanismo de recuperação da alma perdida.

Ali começava para Marcelo o reerguimento longamente planejado pelo mundo espiritual. E para Comélia, Lauro e seus familiares, o testemunho mais importante de suas vidas também era aguardado neste período de atendimento às dores daquele infeliz, que recuperava a sanidade mental graças às tragédias materiais e morais.

A partir daquele dia, todos se sacrificaram para acolher o filho pródigo que regressava ao lar. Na casa espírita, a notícia do reencontro do filho causou alegria, possibilitando a organização da visita fraterna com a aplicação de passes magnéticos e a conversação amiga a benefício do doente.

Jurandir e Alberto, acompanhado às vezes por Alfredo ou por Dalva, semanalmente se dirigiam ao lar de Cornélia para fazerem a prece e envolver Marcelo nos banhos vibratórios de esperança e força.

As primeiras semanas foram um pouco conturbadas pela dificuldade dos cuidados que seu estado de saúde exigia. No entanto, segundo as próprias orientações do mundo espiritual, Marcelo estabilizaria as funções orgânicas pelo tempo necessário ao aproveitamento das lições que lhe chegavam para limpar as chagas de sua alma.

Realmente, as coisas se passaram daquela forma prevista por Ribeiro, com a ação de Bezerra de Menezes auxiliando no reequilíbrio biológico, visando o aproveitamento das novas oportunidades.

A conversa amiga e alegre dos visitantes enchia Marcelo e bom humor. Ele sempre costumava dizer, ao final do encontro:

–    Olha, gente, de um jeito ou de outro eu vou acabar baixando um dia lá nesse centro espírita de vocês, hein! Vocês é que se preparem para me receber. Quando é que voltam aqui?

–    Ora, Marcelo, se você está tão decidido, a gente vai esperar você chegar lá primeiro – respondiam os amigos, sorrindo.

–    Ah!, não… isso vai demorar um pouco ainda. Preciso da energia de vocês para me recuperar. E como é que pensam que vão conseguir entrar no céu se não for fazendo a caridade para com um miserável como eu?

–    A gente não vem aqui por caridade não, Marcelo. A gente vem porque gosta muito de você.

Todos sorriam para disfarçar a emoção e a vontade de chorar, enquanto o doente não conseguia guardar as lágrimas no cofre dos olhos, pensando em quanta coisa boa havia perdido em sua vida.

Os passes magnéticos e o carinho dos que o circundavam fizeram o vaticínio dos médicos cair por terra. Marcelo ganhara peso, se reequilibrara fisicamente, já conseguia sair da cama e andar até a sala. Olhava o sofá onde seu pai dormia todas as noites para lhe deixar a própria cama. Sentia o calor humano dos irmãos, que vinham lhe trazer presentinhos todos os dias, lembranças, fotografias, cds com músicas agradáveis, docinhos e alguns outros agrados.

Nenhum deles lhe dirigiu qualquer palavra de censura ou reprimenda, sobretudo porque se deixaram tocar pela compaixão que o seu estado de saúde impunha por si mesmo.

Era o próprio Marcelo quem tomara a iniciativa de usar-se como exemplo para que os sobrinhos e o irmão mais novo nunca fizessem o que ele havia feito.

HERDEIROS DO NOVO MUNDO
Quando se reuniam à sua volta, Marcelo recomendava, como quem ensina com suas próprias quedas:

–    Não se iludam com as coisas do mundo, por mais sedutoras que possam parecer. Vejam meu estado. Tenho vinte e cinco anos e pareço um velho. Vou viver mais alguns meses quando, em verdade, se tivesse escutado o pai e a mãe, estaria aqui com vocês, sem dar tanto trabalho, por muito tempo. Que a vida que me resta possa servir para alguma coisa. Estou como estou por minha culpa, minha leviandade, porque pensava que a família era a prisão de minha liberdade, castradora de minha personalidade. Precisei chegar a isso para entender que a família é o único lugar onde se encontra quem ama a gente de verdade.

E suas palavras eram tão sinceras, que não havia quem o escutasse e não se emocionasse até o mais profundo de sua alma.

Ali estava um derrotado moral que se esforçava para erguer os outros, tomando a si mesmo como demonstração de equívoco a não ser imitado.

Era um exemplo vivo, não palavras ou teorias.

Marcelo estava refundindo os próprios valores.

Jerônimo e Adelino acompanharam atentos todo o processo de reencontro do filho perdido, sua volta para casa e os meses que levaram o tratamento de seu espírito com vistas ao aproveitamento da experiência final, a mais importante de sua vida, encaminhando-se para a desencarnação.

Assim, no dia em que o falecimento ocorreu, na serenidade do lar, Marcelo e os membros de sua família estavam reunidos. Nos momentos que antecederam o desenlace, pressentindo a chegada da hora final, o rapaz pediu que todos estivessem com ele naquele quarto que se fizera pequeno e, com lágrimas de emoção, pediu que o perdoassem não só pelo sofrimento do passado, mas pelas dificuldades que criara no presente, pelos transtornos que causara na família, pelos gastos que impusera, sem nunca ter cooperado com nada.

Suas palavras, nascidas de um coração agora humilde, eram o atestado da transformação daquele ser, que deixara para trás o charco lodoso da queda moral e se reconstruíra passo a passo, no rumo da autolibertação. Descobrira, por fim, no que consistia a verdadeira liberdade.

–    Orem por mim, meus irmãos, orem como quem ora por um insano que acordou a tempo de reconhecer suas loucuras. No entanto, estejam certos de que eu só consegui reconhecê-las porque recebi o Amor de vocês. Se não fosse isso, talvez ainda restasse em meu interior alucinado a ideia de que o egoísmo e o orgulho são capazes de fazer algo de bom por alguém. Graças a vocês e ao pessoal do centro, vou partir da vida como um devedor feliz, um condenado que se arrependeu sinceramente de seus crimes e que sabe que deverá responder por cada um deles.

Emocionando a todos os que lá se encontravam, pelo esforço com que buscava proferir as derradeiras palavras, por fim, completou:

–    Não sei… para onde vou… mas, quando estiver bem, … quero que saibam que… trabalharei muito… para… um dia… poder recebê-los… do lado de lá… de uma forma que… vocês tenham orgulho de mim… tanto quanto… hoje, eu tenho orgulho de pertencer à família…

E encerrando o desligamento definitivo, encontrou forças para dizer:

–    Desculpa, mãe, desculpa, pai… obrigado… por tudo…

E, sob a comoção geral, entregou a alma aos amigos espirituais que o estavam sustentando até aquele momento, nos ajustes finais do desenlace do pobre rapaz que se recuperava como espírito.

No dia de sua desencarnação, completavam-se onze meses que Marcelo havia deixado o hospital.

Termminada a jornada de Marcelo, Doutor Bezerra nos esclarece o destino do rapaz tendo em vista o momento de transição que atravessa a Terra…

– Marcelo foi considerado um aluno rebelde que, arrependido dos equívocos e suportando com resignação a dor dos meses finais de seu corpo, pôde ser, finalmente, resgatado de si mesmo e encaminhado à recuperação. Seus sofrimentos finais foram consideradas como etapas depuradoras, uma espécie de depuração dos males praticados e, apesar de não terem tido o mesmo volume de seus erros pretéritos, foram aceitos com paciência e humildade e, graças a isso, foram tão produtivos e vantajosos que lhe facultaram a permanência na Terra, ainda que em situação de enfermo do mal sob observação da enfermagem do Bem, a caminho da saúde plena. Ficará em nosso orbe, como um aluno que, ainda que com notas baixas, atingiu o limite mínimo para a aprovação. Certamente que não contará com regalias reservadas aos alunos aplicados. No entanto, poderá continuar seu crescimento espiritual em reencarnações de aprendizado e disciplina em ambientes menos favoráveis, no seio de povos menos desenvolvidos, onde a carência de recursos e meios o auxilie a não mais se iludir com facilidades materiais, valorizando cada conquista como um recurso de crescimento e não como arma de destruição.

E se estas novas experiências forem bem aproveitadas por um Marcelo renovado, quem sabe venha a renascer um dia no seio da família que o ajudou nesta hora tão amarga de seu destino, graças a cujo apoio e carinho reordenou a trajetória evolutiva ao invés de seguir para o triste exílio em planeta inferior à Terra.

Nesta etapa evolutiva, Lauro e Cornélia foram os seus Maiores benfeitores. Pela forma como ambos se conduziram nesse transe doloroso, demonstraram ser bons alunos, capacitados para para o entendimento das diretrizes planetárias,
construtores de uma nova humanidade e enfermeiros do Bem. Apesar de lutarem contra as próprias deficiências, souberam vencer os obstáculos que carregavam no coração e, pela força de suas deliberações amorosas vividas na forma de renúncia, compreensão, tolerância, compaixão, passaram no exame com louvores dignos de excelentes e aplicados estudantes.

Livro Herdeiros do Novo Mundo, caps. 29 e 30, Espírito Lúcius – psicografia de André Luiz Ruiz.