Estudando o Espiritismo

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sábado, 16 de julho de 2016

PARÁBOLA DO CREDOR INCOMPASSIVO

"Então Pedro, aproximando-se de Jesus lhe perguntou: Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, que lhe hei de perdoar? Será até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes."

"Por isso o Reino dos Céus é semelhante a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos. E tendo começado a ajustá-las, trouxeram um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo, porém, o servo com que pagar, ordenou o seu senhor que fossem vendidos - ele, sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, e que se pagasse a dívida.

"O servo, pois, prostrando-se, o reverenciava dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei tudo! E o senhor teve compaixão daquele servo, deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida. Tendo saido, porém, aquele servo, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem denários; e , segurando-o, o sufocava, dizendo-lhe: Paga o que me deves! E este, caindo-lhes aos pés, implorava: tem paciência comigo, que te pagarei! Ele, porém, não o atendeu; mas foi-se embora e mandou conservá-lo preso, até que pagasse a dívida.

"Vendo, pois, os seus companheiros o que se tinha passado, ficaram muitíssimo tristes, e foram contar ao senhor tudo o que havia acontecido. Então, o senhor chamando-o, disse-lhe: servo malvado, eu te perdoei toda aquela dívida, porque me pediste; não devia também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti? E irou-se o seu senhor e o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia.

"Assim também meu Pai celestial vos fará, se cada um de vós do íntimo do coração não perdoar a seu irmão".

(Mateus, XVIII, 21-35)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

No capítulo VI do Sermão do Monte, segundo Mateus, versículo 5 a 15, ensinou Jesus a seus discípulos e à multidão que se apinhava para ouvir os seus ensinos, a maneira como se deveria orar; e aproveitou o ensejo para resumir num excelente e substancioso colóquio com Deus, a súplica que ao poderoso Senhor devemos dirigir cotidianamente.

O Mestre renegava as longas e intermináveis rezas que os escribas e fariseus do seu tempo proferiam, de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Observou a seus ouvintes que tal não fizessem, mas que, fechada a porta do seu quarto, dirigissem, em secreto, a súplica ao Senhor. A fórmula de oração e compromissos que teriam de assumir os suplicantes, e dos quais se destaca o que constitui objeto dos ensinos que se acham contidos na Parábola do Credor Incompassivo: "Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores".

Do cumprimento ou não desta obrigação, depende o deferimento ou indeferimento do nosso requerimento. Além disso, nesse dever se resume toda a confissão, comunhão, extrema-unção, etc... Aquele que confessar, comungar, receber a unção, mas não perdoar os seus devedores, não será perdoado; ao passo que o que perdoar será imediatamente perdoado, independentemente das demais praxes recomendadas pela Igreja de Roma ou quaisquer outras igrejas, como meio de salvação.

Acontece ainda que o perdão, conforme o Cristo ensinou a Pedro, deve ser perpétuo, e não concedido uma, duas ou sete vezes. Daí vem a parábola explicativa da concessão que devemos fazer ao nosso próximo, para podermos receber de Deus o troco na mesma moeda. Vemos que o primeiro servo a chegar foi justamente o que mais devia: 10.000 talentos! Soma fabulosa naquele tempo, para um trabalhador, não só naquele tempo como também hoje, pois valendo cada talento CR$ 1.890,00 em moeda brasileira, 10.000 atingia a respeitável soma de CR$ 18.900.000,00 (dezoito milhões e novecentos mil cruzeiros). Se algum servo, que só tivesse mulher, filhos e alguns haveres ficasse devendo essa importância para o Vaticano, depois de entregue ao braço forte seria irremissivelmente condenado às penas eternas do Inferno!

Jesus escolheu mesmo essa quantia avultada para melhor impressionar seus ouvintes sobre a bondade de Deus e a natureza da doutrina que em nome do Senhor estava transmitindo a todos. Nenhum outro devedor foi lembrado na parábola, porque só o primeiro era bastante para que se completasse toda a lição. Pois bem, esse devedor, vendo-se ameaçado de ser vendido com ele sua mulher e seus filhos, sem eximir-se do pagamento, pediu moratória, valendo-se da benevolência do rei; este, cheio de compaixão, perdoou-lhe a dívida, isto é, suspendeu as ordens que havia dado para que tudo quanto possuía, mulher, filhos e mesmo o servo, fossem vendidos para o pagamento.

Mas continua a parábola, aquele devedor, que havia recebido o perdão, logo ao sair encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem denários, ou seja CR$...31,50 da nossa moeda, verdadeira bagatela que para ele, homem devedor de aproximadamente 19 milhões de cruzeiros, por certo nada representava; e exigiu do devedor, violentamente o seu dinheiro. Ao desdobrar-se aquele cena, os seus companheiros, que haviam presenciado tudo o que se passara, indignaram-se e foram contar ao rei o acontecido.

Daí a nova resolução do senhor; entregou o servo malvado aos verdugos, a fim de que o fizessem trabalhar à força, até que lhe pagasse tudo o que lhe devia. Esta última condição é também interessante: paga a dívida, recebe o devedor a quitação; o que quer dizer: sublata causa, tolitur effectus. A dívida deve forçosamente constar de um certo número de algarismos; subtraídos estes por outros tantos semelhantes, o resultado há de se 0.

Quem deve 2 paga 2, nada fica devendo; quem deve dezoito milhões e novecentos mil cruzeiros e paga dezoito milhões e novecentos mil cruzeiros, não pode continuar a ficar pagando dívida. Isto é mais claro que água cristalina. Termina Jesus a parábola afirmando: "Assim também meu Pai Celestial vos fará, se cada um de vós do íntimo do coração não perdoar a seu irmão".

Sem dúvida, é tão difícil a um pecador pagar dezoito milhões e novecentos mil pecados, como a um trabalhador pagar dezoito milhões e novecentos mil cruzeiros. Mas, tanto um como outro têm a eternidade diante de si; o que não se pode fazer numa existência, far-se-á em duas, vinte, cinquenta, far-se-á na outra vida, em que o Espírito não está inativo.

Tudo isso está de acordo com a bondade de Deus, aliada à sua justiça; o que não pode ser é o indivíduo paar eternamente e continuar a pagar, depois de já ter pago. A lei do perdão é inflexível, reina no Céu tal como a presceveu na Terra o Mestre nazareno, cujo Espírito alheio aos princípios sacerdotais, aos dogmas e mistérios das igrejas, deve ser ouvido, respeitado, amado e servido

CAIBAR SCHUTEL

2 - PAULO ALVES GODOY

A parábola do Credor Incompassivo merece uma análise mais profunda, pois ela deixa entrever, numa escala reduzida, o que ocorre na Justiça Divina: há necessidade de se perdoar, para também ser perdoado.

Jesus Cristo, num dos seus maravilhosos ensinos, recomenda que devemos perdoar os nossos desafetos enquanto estivermos a caminho com Ele, o que implica em dizer que cumpre perdoar os nossos ofensores enquanto estivermos com eles na Terra, porque, aqui, na realidade, é o palco dos reajustes e das expiações.

Indagado pelo apóstolo Pedro sobre quantas vezes dever-se-ia perdoar um ofensor: duas, três ou sete vezes, o Mestre retrucou: "Não deveis perdoar sete, mas setenta vezes sete vezes". Isso significa que devemos estar sempre animados do desejo de perdoar, pois, Deus sempre leva em consideração aqueles que sabem relevar as faltas do seu próximo, esquecenndo todo e qualquer ressentimento.

Na parábola, observamos que um determinado rei, face à súplica de um dos seus servos que lhe devia elevada quantia, e que estava na iminência de ser vendido juntamente com seus familiares, para o ressarcimento da dívida, resolveu perdoá-lo, deixando-o ir livre.

Porém, o servo que havia merecido o perdão de suas dívidas, saindo dali, deparou com um seu companheiro, o qual lhe devia uma quantia só que irrisória. Ao fazer a cobrança da dívida, o devedor arrojou-se a seus pés pedindo clemência. O credor, no entanto, foi incompassivo, ordenando que o homem fosse preso até que a dívida fosse paga, fazendo-o após de agarrá-lo pelo pescoço, e praticado um ato de violência.

Outros seus companheiros, que estavam na praça e haviam presenciado a atitude inqualificável daquele homem, foram denunciar o fato ao rei.

O rei, indignado com o seu procedimento, ordenou que ele viesse à sua presença, e admoestou-o severamente pela sua atitude impiedosa, e voltando atrás em sua deliberação anterior, ordenou que o servo incompassivo fosse entregue aos torturadores, e mantido preso até que a dívida fosse quitada.

Virtude santificante é saber perdoar, mas poucos sabem usá-la. Jesus Cristo, na hora extrema da sua crucificação, ergueu os olhos aos Céus e rogou ao Pai que perdoasse os seus algozes, porque eles não sabiam o que estavam fazendo, representando essa sua atitude um autêntico exemplo de bondade e de tolerância para com as faltas alheias. Essa demonstração de amor ao próximo deve servir de paradigma para todas as gerações.

A falta cometida por qualquer pessoa, reclama reajustamento no futuro, e as piores coisas que podem acontecer aos nossos Espíritos, ao adentrarem a vida futura, é levar os corações inundados de ódio e de sentimentos de vingança. Isso, indubitavelmente, servirá para acarretar sensíveis atrasos em nosso processo evolutivo.

Quando suplicamos ao Pai, na oração dominical: "Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores", geralmente fazemos uma promessa inócua, um verdadeiro engodo. Queremos realmente que Deus perdoe as nossas grandes dívidas e ofensas, em retribuição prometemos, mas não cumprimos, dispensar o perdão àqueles que nos devem muito pouco.

Não devemos, desta maneira, agir como o credor incompassivo. Sempre que suplicarmos o perdão a Deus, devemos ter em mente que torna-se mister possuirmos um coração limpo de qualquer ressentimento, estando sempre animados do propósito de perdoar o nosso próximo, com o esquecimento de todos os males que nos tenham atingido.

Paulo Alves Godoy

3 - RODOLFO CALLIGARIS

Esta parábola de Jesus é uma ilustração admirável daquela frase contida na oração dominical, em que ele nos ensina a rogar ao Pai celestial: "perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores."

O primeiro servo era devedor da quantia de dez mil talentos, soma fabulosa, que, em nossa moeda, equivaleria hoje a uns duzentos milhões de cruzeiros.

Esse devedor, vendo-se ameaçado de ser vendido, e mais a mulher, os filhos, e tudo quanto possuía, para resgate da dívida, pediu moratória, isto é, um prazo para que pudesse satisfazer a tão vultoso compromisso, e o rei, compadecendo-se dele, deferiu-lhe o pedido.

Pois bem, mal havia obtido tão generoso atendimento, eis que encontrou um companheiro que lhe devia uma bagatela, ou sejam, cem denários (aproximadamente quatrocentos cruzeiros) e, para reaver o seu dinheiro, não titubeou em usar de recursos violentos.

Lamentàvelmente, esta é, ainda em nossos dias, a norma de conduta de grande parte da Humanidade. Reconhece-se pecadora, não nega estar sobrecarregada de dívidas perante Deus, cujas leis transgride a todo instante, mas, ao mesmo tempo que suplica e espera ser perdoada de todas as suas prevaricações, age, com relação ao próximo, de forma diametralmente oposta, negando-se a desculpar e a tolerar quaisquer ofensas, por mais mínimas que sejam.

Continua a parábola dizendo que o rei, posto a par do que havia acontecido com o segundo servo, mandou vir o primeiro à sua presença e, em nova disposição, após verberar-lhe a falta de comiseração para com o seu companheiro, determinou aos verdugos que o prendessem e o fizessem trabalhar à força até que pagasse tudo quanto lhe devia .

Este tópico da narrativa evangélica é de suma importância. Revela, claramente, que há sempre um limite no pagamento das dívidas. Estas podem, algumas vezes, ser realmente muito vultosas, como no caso prefigurado dez mil talentos! - mas, uma vez pago esse montante, o devedor fica com direito à quitação.

Semelhantemente, o pagamento de dez mil pecados pode determinar longos períodos de sofrimento, muitas existências expiatórias, mas, uma vez restabelecido o equilíbrio na balança da Justiça Divina, ninguém pode ser coagido a ficar pagando eternamente aquilo de que já se quitou.

Jesus finaliza, afirmando: "Assim também meu Pai celestial Vos fará, se cada um de vós, do íntimo do coração, não perdoar a seu irmão."

Disto se conclui que a vontade de Deus é que nos adestremos na prática do perdão e da indulgência, e, para estimular-nos à conquista dessas virtudes, a todos favorece com Sua longanimidade e inexcedível misericórdia.

Àqueles, porém, que se mostram impiedosos e brutais nas atitudes que assumem contra os que os ofendem ou prejudicam, faz que conheçam, a seu turno, o rigor da Providência, a fim de que aprendam, por experiência própria, qual a melhor maneira de tratar seus semelhantes.

Rodolfo Calligaris

4 - PARÁBOLA DO CREDOR INCOMPASSIVO - THEREZINHA OLIVEIRA

Por isso o reino dos céus é semelhante a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos. E passando a fazê-lo trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.

Como um talento equivalia a 6 mil denários, tratava se de uma grande dívida: 60 milhões de denários!

Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos, e tudo quanto possuía, e que a dívida fosse paga.

Esta cruel punição para os devedores insolventes fazia parte de legislações antigas como a israelita.

Então o servo, prostrando-se reverente, rogou:
- Sê paciente comigo e tudo te pagarei.
E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora, e perdoou-lhe a dívida.

Podemos imaginar o alívio sentido pelo servo, face ao generoso perdão de sua grande dívida pelo senhor.

Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários;

A dívida, agora, era bem pequena, mas o servo..

e agarrando-o, o sufocava, dizendo:
- Paga-me o que me deves. Então o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava:
- Sê paciente comigo e te pagarei.

Era o mesmo pedido que ele acabara de fazer ao senhor...

Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida.

Assim costuma ser a nossa atitude. Quando erramos, queremos ser perdoados e imploramos a Deus nos dê nova oportunidade para resgatarmos nossos débitos. São muito grandes as nossas dívidas para com Deus mas o Pai, misericordiosamente, nos atende, dando-nos renovadas oportunidades para nos reajustarmos e fazermos o bem que antes não havíamos feito. Porém, ante os erros dos nossos semelhantes para conosco, débitos jamais tão grandes como os nossos para com Deus, nos tornamos exigentes e impiedosos.

Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito, e foram relatar ao seu senhor tudo o que acontecera.

Sem dúvida, nosso comportamento entristece aos bons espíritos que, em nome de Deus, velam pelos seres humanos, procurando fazer que haja entre todos nós paz e solidariedade. Mas o "foram relatar ao seu senhor tudo o que acontecera" simboliza apenas que nossos atos repercutem na vida universal e acarretam consequências dentro das leis divinas, o que também simbolizado, na reação do senhor:

Então o seu senhor, chamando-o lhe disse:
- Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadeceres-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?
E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida.

E, finalmente, Jesus conclui sua magistral lição:

Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.

Perdoemo-nos sempre uns aos outros! Também temos errado muito e muitas vezes, e Deus sempre nos tem perdoado, concedendo-nos novas oportunidades de recuperação. A atitude que escolhermos para o trato com os nossos semelhantes decretará, ante a justiça divina, o critério pelo qual seremos por nossa vez avaliados. "Com a medida com que medirdes sereis medidos". (Mateus 7:2).

O CREDOR INCOMPASSIVO

5 - O Credor Incompassivo

Mateus, 18:23-35

Um dos temas preferidos de Jesus é o perdão. Considera-o tão importante que faz dele condição imprescindível ao ingresso nas celestes bem-aventuranças. Diz o Mestre:

O Reino de Deus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos.
Trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.

Talento era uma moeda cujo valor equivalia a doze quilos e seiscentos gramas de prata. A dívida do servo, portanto, era imensa, equivalente a cento e vinte e seis mil quilos do valioso metal.

Não tendo ele com que pagar, ordenou o rei que fossem vendidos - ele, sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, para pagamento da dívida.
O servo, porém, prostrando-se aos seus pés, suplicou:
- Tem paciência comigo, senhor, eu pagarei tudo.
O rei compadeceu-se dele e, movido de compaixão, perdoou-lhe a dívida.
O servo deixou feliz o palácio (certamente com a alegria de quem acaba de ganhar a mega-sena acumulada).
Na rua, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem denários...

O denário equivalia a quatro gramas de prata. Débito pequeno, portanto. Apenas quatrocentos gramas de prata.
Caberia na palma da mão.

O servo do rei agarrou seu devedor pelo pescoço e quase o sufocava, gritando:
- Paga o que me deves!
O devedor, caindo-lhe aos pés, implorou:
- Tem paciência comigo, que te pagarei.
Ele, porém, não o atendeu e providenciou para que fosse preso e preso ficasse, até a quitação de seu débito.
Algumas pessoas, que viram o que se passara, admiraram a intransigência do servo e foram contar ao rei. Este o mandou chamar:
- Servo malvado, eu te perdoei toda aquela dívida, porque me pediste. Não devias tu, também, ter compaixão de teu companheiro, como eu tive de ti? Realmente, um absurdo.
O rei perdoou-lhe os cento e vinte e seis mil quilos de prata!
Ele não foi capaz de perdoar quatrocentos gramas!

Indignado, o rei mandou prendê-lo, dizendo-lhe que não sairia da prisão até pagar sua dívida.

Conclui Jesus:

-Assim também meu Pai Celestial vos fará, se cada um de vós, do íntimo do coração, não perdoar a seu irmão.

***

A comparação é perfeita.
Espíritos atrasados, orientados pelo egoísmo, habitantes de um planeta de provas e expiações, certamente trazemos grandes comprometimentos com as leis divinas, resultantes de infrações cometidas no pretérito.
Algo tão pesado, tão grande, que Deus até nos concede a bênção do esquecimento, a fim de não sermos esmagados pelo peso de nossas culpas.
E sempre que pronunciamos ò Pai-Nosso, a oração dominical que muita gente repete às dezenas em suas rezas, estamos reconhecemos que somos devedores, ao rogar:

.. .perdoa as nossas dívidas...

Esquecemos a contrapartida, que condiciona o perdão divino:

.. .assim como perdoamos aos nossos devedores.

André Luiz adverte que a ação do mal pode ser rápida, mas ninguém sabe quanto tempo levará o serviço da reação, indispensável ao restabelecimento da harmonia da Vida, que quebramos com nossas atitudes contrárias ao Bem.
A bobeira de um minuto pode resultar em decênios de sofrimentos para consertar os estragos que fazemos em nossa biografia espiritual, quando não exercitamos o perdão.
Dois condôminos de um prédio discutiram sobre vagas na garagem coletiva. Irritaram-se. Gritaram. Ofenderam-se, com a inconsequência de quem fala o que pensa, sem pensar no que fala.
Um deles partiu para a agressão física. O agredido apanhou um revólver e deu-lhe vários tiros, matando-o.

Ambos comprometeram-se, infantilmente.
O morto retomou, prematuramente, à vida espiritual, interrompendo seus compromissos.
O assassino assumiu débitos cujo resgate lhe exigirá muitas lágrimas e atribulações.
Isso sem falar nas famílias desamparadas, ante a ausência dos dois: um no cemitério; outro, na prisão.
E se cônjuge e filhos se comprometerem em vícios e desajustes, favorecidos pela ausência do chefe da casa, tudo isso lhes será debitado.
Não raro, esses desentendimentos geram processos obsessivos. O morto transforma-se em verdugo, empolgado pelo desejo de fazer justiça com as próprias mãos.
E ninguém pode prever até onde irão os furiosos combates espirituais entre os dois desafetos, um na Terra, outro no Além.
Tudo isso por quê?
Porque não empregaram o verbo adequado, no exercício de suas ações. Usaram o revidar. Certo seria o relevar. Relevar sempre! Nunca revidar!
Lição elementar, nos ensinos de Jesus.

Não é apenas o mal que fazemos aos outros, quando não perdoamos...

E, sobretudo, o mal que fazemos a nós mesmos.
O rancor, a mágoa, o ódio, o ressentimento, são tão desajustantes que será sempre um ato de inteligência cultivar o perdão.
Quando eu era menino, meu pai tinha um cachorrinho que mais parecia um bibelô, um "tampinha" insignificante.
Mas, no que tinha de pequeno, sobrava em braveza. Era tão irritadiço, latia tanto, que um dia teve uma síncope fulminante. Morreu de raiva!
Há pessoas assim, agressivas, impertinentes, neuróticas...
Não levam desaforo para casa. Vivem estressadas, tensas, inquietas...
Acabam provocando distúrbios circulatórios, que evoluem para a hipertensão arterial.
Um dia sofrem enfarte fulminante.
Morrem antes que possam ser socorridas.
- Bela passagem! - dizem os amigos. - Morreu como um passarinho...
Belas palavras, trágico equívoco.

E a pior morte!
O Espírito não deixou o corpo. Foi expulso dele!
Exigiu tanto do organismo, com suas crises de irritabilidade, que acabou por detonar um colapso. Foi como se o coração implodisse, incapaz de resistir às pressões do usuário.
Retomou prematuramente, como um suicida inconsciente, habilitando-se a estágios penosos de adaptação à vida espiritual.

***

Há os que se matam mais devagar. Envenenam-se com ressentimentos, mágoas, rancores...
Está demonstrado que os melindrosos são mais vulneráveis a doenças graves.
O câncer, por exemplo, nada mais é que uma célula com defeito de fabricação, que se multiplica, criando um corpo estranho no organismo, um invasor letal.
Normalmente, essa célula é eliminada pelos mecanismos imunológicos, tão logo surge. Quando o ressentimento se prolonga, eles são bloqueados e o câncer evolui.
Fácil concluir que perdoar é um ato de inteligência. O mínimo a ser feito para que vivamos de forma saudável e feliz.

Richard Simonetti